Comício e exposição evocam 75 anos do 18 de Janeiro na Marinha Grande

Uma jornada heróica que anima a nossa luta

Hugo Janeiro
O 18 de Janeiro de 1934 na Marinha Grande foi«a primeira grande acção de massas contra o fascismo» e, 75 anos decorridos, «continua a ser uma jornada que se projecta na luta dos nossos dias», disse Jerónimo de Sousa no comício que o PCP realizou, sexta-feira, 16, para evocar o heróico levantamento do operariado e do povo marinhense.

«A luta de classes continua a ser a grande questão da nossa época», disse Jerónimo de Sousa

Horas antes do comício, o secretário-geral do Partido inaugurou a exposição que até ao final deste mês estará patente na Praça Stephens, bem no centro da cidade vidreira. Acompanhado por responsáveis regionais e locais, militantes comunistas e alguns populares, e por Joaquim Gomes - histórico dirigente do PCP e ex-operário vidreiro que integrou e viveu algumas das grandes lutas desenvolvidas na Marinha Grande a partir dos anos 20 do século passado -, Jerónimo de Sousa percorreu os painéis onde se relatam os principais acontecimentos daquela insurreição operária, explica-se o contexto histórico, político e social no plano nacional e local, ilustrado com fotos da época, evocam-se os mártires, heróis, deportados e principais responsáveis pela direcção da revolta, e recordam-se algumas das anteriores homenagens promovidas pelo PCP.
Aberta a mostra evocativa dos 75 anos da proclamação do soviete marinhense, a comitiva atravessou a estrada em direcção ao Museu do Vidro e abrigou-se do frio cortante trazido pela noite. Dentro do auditório, alguns tiveram que ficar de pé enquanto decorria a apresentação do catálogo da exposição. As conversas iniciadas na praça onde se desenrolaram alguns dos mais importantes acontecimentos do 18 de Janeiro continuaram entre as paredes da antiga Fábrica Stefens e só foram interrompidas para a intervenção que antecedeu o porto de honra.
Lembrando que esta evocação é feita pelo «Partido que assumiu o envolvimernto dos seus quadros e militantes, e portanto responsabilidades na condução das lutas desse período e do período do 18 de Janeiro», José Augusto Esteves, da Comissão Central de Controlo, destacou a qualidade do documento editado pela Direcção da Organização de Leiria do PCP, o qual fixa «a essência dos acontecimentos» e presta uma duradora homenagem aos seus principais protagonistas.
«Homens que cedo conheceram a dureza da vida nas fábricas e muito cedo percorreram os caminhos da luta». Trabalhadores que com apenas 12 anos não só participavam mas dirigiam a própria luta conhecendo precocemente a prisão e, mais tarde, «se sacrificaram em defesa dos interesses dos seus companheiros de trabalho e do seu povo, unidos por esse ideal fraterno e comum de combate à injustiça e às desigualdades». Comunistas que impulsionados pela reorganização do Partido em 1929, empreendida com Bento Gonçalves, desenvolvem no contexto da consolidação da ditadura fascista uma exaltante e intensa actividade política e sindical na Marinha Grande, trabalhando incansavelmente para a unificação das diversas organizações de classe dos vidraceiros, garrafeiros, cristaleiros e lapidários numa única organização nacional, e para o reforço e implantação do PCP no seio da classe operária e dos trabalhadores.
Homens de grande dedicação e disponibilidade revolucionária como José Gregório, António Guerra, Augusto Costa, Manuel Baridó, Adriano Neto Nobre ou Manuel Esteves Carvalho - o «Manecas» como lhe chamavam carinhosamente os amigos, e que foi até ao 18 de Janeiro de 1934 o responsável local do Partido deixando no colectivo comunista da Marinha Grande a raiz combativa que perdurará em décadas de resistência ao fascismo -, que estarão «na direcção do movimento do 18 de Janeiro» e, muito embora tenham sido derrotados «num combate em que a heroicidade não bastava para vencer a desproporcionalidade das forças», inscrevem os seus nomes num grande feito da classe operária portuguesa, sublinhou o dirigente do PCP.

Exemplo da resistência ao fascismo

Já perto das nove e meia e com o estômago mais confortado, muitos dos que haviam estado na inauguração da exposição e na apresentação do catálogo dirigiram-se ao Sport Operário Marinhense para a última iniciativa da evocação da revolta operária e popular de 1934 na Marinha Grande. A estes juntaram-se muitos mais, tornando apertado o espaço que acolheu o comício. Enquanto a música e a passagem de um filme alusivo aos acontecimentos de há 75 anos preparava os discursos de Sérgio Moiteiro, em nome da DORLEI, de Irina Souzinha (ver caixa), em nome da JCP, e de Joaquim Gomes (ver caixa), cá fora vendiam-se o AGIT e outros materiais de banca, e distribuia-se o último documento da campanha do Partido afirmando «Sim é possível uma vida melhor!».
A encerrar a maratona comemorativa, Jerónimo de Sousa frisou que o 18 de Janeiro de 1934 é a «primeira grande acção de massas contra o fascismo salazarista e em que a classe operária se perfila como a força determinante na resistência e na luta pela liberdade e pela democracia».
«Pela sua amplitude, pela natureza que assumiu, pelos ensinamentos que permitiu extrair, continua a ser, para nós comunistas, um acontecimento marcante na longa e heróica luta dos trabalhadores portugueses pela liberdade e pelo direito a construir uma vida liberta de todas as formas de opressão e exploração», continuou, sobretudo se considerarmos que os revolucionários que se ergueram contra a ditadura não só foram vítimas da mais feroz repressão e sujeitos «a toda a espécie de perseguições, larguíssimos anos de cadeia, deportações e assassinatos», como o fizeram num contexto em que «o fascismo português acabava de completar o seu processo de institucionalização, Hitler havia chegado ao poder e pela Europa fora aumentava o número de ditaduras fascistas ao serviço do grande capital», apostado em «ajustar contas com o movimento operário e enterrar de vez as suas aspirações».
«O exemplo dos revolucionários do 18 de Janeiro animou e inspirou a luta de sucessivas gerações contra o fascismo, sem a qual – nunca é demais recordá-lo - a democracia conquistada em 25 de Abril de 1974 não teria sido possível», acrescentou o secretário-geral do PCP. «Quando proclamamos “Fascismo nunca mais, 25 de Abril Sempre”, expressamos o repúdio pelo fascismo que mergulhou o Pís e o povo na mais negra miséria e opressão durante 48 anos. Fazêmo-lo para manifestar o nosso apego à conquista da liberdade para a qual os trabalhadores e os comunistas deram uma contribuição ímpar, mas também para lembrar que os exploradores e o poder político que os serve nada dão de livre e espontânea vontade, que a liberdade conquistada precisa de ser defendida, para que os sacrifícios de sucessivas gerações não tenham sido em vão».

Combate pleno de actualidade

«Apesar de terem decorrido 75 anos, apesar das profundas alterações verificadas no País e no mundo, o 18 de Janeiro continua a projectar-se na luta dos nossos dias», prosseguiu Jerónimo de Sousa, que reiterou ainda que aquela jornada heróica, «com a dimensão e as características que assumiu, só foi possível pela existência de uma classe operária experiente e temperada na luta, pela existência de um abnegado núcleo de dirigentes, uma combativa organização de classe e sindical, nomeadamente nas empresas, e pela existência de um Partido ligado às massas e às mais profundas aspirações dos trabalhadores e do povo».
«Num tempo em que os trabalhadores são confrontados com o aumento da exploração, com o ataque cerrado aos seus direitos individuais e colectivos, com a desvalorização dos seus salários; num tempo em que o capitalismo em crise procura responder com a receita de sempre fazendo pagar a quem trabalha os custos da sua criminosa política e da sua sede insaciável do lucro, sejam quais forem as circunstâncias, em 1934 como no ano 2009, a luta de classes resultante do antagonismo de interesses continua a ser a grande questão da nossa época contemporânea!». Por isso, acrescentou, «o Partido Comunista Português dá todo o seu apoio e valoriza as importantes lutas que têm sido travadas pelos trabalhadores e pelas populações e apela ao seu reforço e participação».
Por Abril e pelos direitos conquistados; contra os ataques à legislação laboral; em defesa da soberania e do aparelho produtivo nacional, do desenvolvimento do País e dos postos de trabalho ameaçados pelo garrote neoliberal; por salários dignos, uma mais justa repartição da riqueza produzida; por melhores condições de vida e em defesa dos serviços públicos, o PCP não se resigna e reafirma «que os trabalhadores e o povo português não estão condenados a viver assim, que Portugal tem futuro, que, com uma ruptura com a política de direita, com a luta e o reforço do PCP, é possível uma vida melhor», concluiu o secretário-geral do Partido.

Joaquim Gomes
«Acção revolucionária do operariado»

«Em 18 de Janeiro de 1934, o fascismo salazarista foi derrotado localmente, por umas escassas horas, mas derrotado», começou por dizer Joaquim Gomes perante a plateia que o acolheu com entusiasmo.
Acima de tudo, frisou, a histórica iniciativa operária e popular na Marinha Grande é um acontecimento «inseparável das novas lutas dos trabalhadores que então se travavam em defesa das condições de trabalho e de vida», jornadas feitas de numerosas vitórias ao longo dos anos», entre as quais se destacam as ocorridas de 1929 a 1933 quando, em plena crise capitalista, «várias empresa vidreiras foram encerradas, outras reduziram os dias de trabalho e o número de desempregados era cada vez maior, como maior era o protesto».
«Para responder a esta situação, o governo foi forçado a subsidiar trabalhos na Mata Nacional, só que esqueceu que os desempregados, enfraquecidos pela miséria e pela fome, não tinham resistência para grandes caminhadas a pé, e, face ao descontentamento e à luta dos trabalhadores, «tiveram que utilizar o chamado “comboio de lata” para os transportar» de casa para o trabalho, conquista com grande significado entre os vidreiros.
Tal como esta, outras lutas «são importantes precedentes históricos» no ascenso revolucionário do operariado vidreiro, sublinhou Joaquim Gomes, como a «greve dos Roldões, que se prolongou durante nove meses e só foi possível graças à solidariedade organizada e mantida pelos trabalhadores doutras empresas, bem como em geral pelos trabalhadores de outras profissões que através de iniciativas diversas contribuíram para que os grevistas e suas famílias se pudessem manter», ou a «greve das Gaivotas», esta de especial relevo pela importância assumida pelo Sindicato Vidreiro, o qual «é por si só uma vitória dos trabalhadores» e que, posteriormente, «alargou a sua influência a toda a indústria vidreira do País».
Dignas de destaque, ainda, as lutas desenvolvidas pelas «empalhadeiras de garrafões, que organizadas lutaram por melhores vencimentos e condições de vida», e as dos aprendizes, «que por melhores salários e contra a violência no trabalho que chefes e alguns operários adultos sobre eles exerciam, forjaram a sua unidade e combatividade e conseguiram por vezes paralisar quase toda a produção da cristalaria».
Estas e muitas outras acções, assim como o papel do Sindicato Vidreiro, «que embora autorizado em 1931 nem por isso deixou de ser um alvo da repressão salazarista», com sucessivos encerramentos e vagas de prisões dos seus dirigentes, aos quais se seguiam «grandes manifestações contra a repressão e pelo regresso dos detidos a casa», são antecedentes «que demonstram que o 18 de Janeiro de 1934 foi uma acção revolucionária do operariado vidreiro em estreita ligação com o povo desta terra». Acções como a tomada dos postos da GNR e dos correios, e o corte dos acessos à Marinha Grande só foram possíveis graças à unidade e direcção prática, mas também à «coragem e determinação revelada por um grande número de camaradas, posteriormente deportados para Angra do Heroísmo e para o Tarrafal, barbaramente torturados e alguns assassinados».
«O 18 de Janeiro não foi um acto isolado, limitado e desorganizado, foi o resultado concreto da organização, assente num trabalho profundo de ligação às massas trabalhadoras e ao povo da Marinha Grande e à suas mais profundas aspirações», disse Joaquim Gomes que concluiu reafirmando-se confiante «de que a luta continua até à vitória do socialismo!».

Exemplo para a juventude

Intervindo no comício em nome da Juventude Comunista Portuguesa, Irina Souzinha lembrou que o «papel do PCP e da juventude foram decisivos» numa jornada que, repetiu, «ficará para sempre marcada na história da resistência ao fascismo e na luta pela liberdade e democracia».
Três quartos de século depois, o fascismo foi derrotado, muitas e grandes conquistas consolidaram-se pela mobilização dos trabalhadores e do povo, mas a política de direita não desarma e os jovens de hoje vêem «nos exemplos de coragem e determinação dos homens e mulheres do 18 de Janeiro, a demonstração de que é na luta que reside o caminho para a vitória», disse.
Assim, a JCP assume o seu papel indispensável na mobilização dos estudantes do ensino secundário contra o Estatuto do Aluno, os Exames Nacionais, pela implementação da educação sexual nas escolas e por um ensino gratuito, público e de qualidade, como as recentes lutas em todo o País e na região de Leiria envolvendo mais de 50 mil estudantes atestaram; na dinamização dos estudantes universitários para o combate ao Processo de Bolonha e consequente elitização do Ensino Superior, ora por via da cobrança de propinas incomportáveis aos alunos, ora através do garrote orçamental do Estado às instituições, fazendo-as depender cada vez mais das anuidades pagas pelos alunos e de outras formas de financiamento; quer ainda na consciencialização dos jovens trabalhadores particularmente atingidos pelas alterações ao Código de Trabalho, pela precarização das relações laborais e pelo desemprego crescente, referiu Irina Souzinha.
Na agenda dos jovens comunistas, três importantes iniciativas para o reforço da organização se avizinham, lembrou ainda a jovem comunista. Os encontros nacionais do Ensino Secundário e do Ensino Superior, em Almada e Coimbra, respectivamente, e o VII Encontro Regional de Leiria da JCP, representam oportunidades para «contactar com dezenas de camaradas, auscultar os jovens da região sobre os problemas e com eles discutir soluções para a sua resolução».
«Hoje, como em 1934, a juventude assume o seu cariz revolucionário lutando com o objectivo de construir uma sociedade mais justa», concluiu.




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