À porta fechada

Anabela Fino
Entre 16 e 19 de Janeiro o País tomou conhecimento das mais recentes previsões para a economia portuguesa. Os dados avançados, apesar de distintos, coincidem no essencial: aumento da taxa de desemprego, contracção do Produto Interno Bruto (PIB), aumento do défice e da dívida pública.
Os valores mais «optimistas» foram avançados pelo Governo, na sexta-feira, e apontam para uma quebra do PIB de 0,8 por cento em 2009, seguida de um crescimento positivo de 0,5 por cento já no próximo ano, e um agravamento do desemprego para os 8,5 por cento. Na segunda-feira, as previsões intercalares publicadas em Bruxelas revelavam que a perspectiva é de uma quebra de 1,6 por cento do PIB (o dobro do estimado pelo Governo), com a manutenção da economia em terreno negativo pelo menos até 2010 (ano com uma contracção prevista de 0,2 por cento), e o contínuo agravamento do desemprego, que poderá ultrapassar os 9,1 por cento da população activa. No mesmo dia, em Lisboa, o Economist Intelligence Unit (EIU) – do grupo que detém a revista The Economist – anunciava previsões ainda piores: contracção de 2 por cento do PIB este ano e de 0,1 no próximo, taxa de desemprego a rondar os dois dígitos e perigo de deflação (inflação abaixo do zero).
Um cenário negro.
É claro, como já afirmou o ministro das Finanças Teixeira dos Santos, que se trata de previsões e estas valem o que valem, pelo que o Governo considera não haver qualquer problema se daqui a uns dias tiver de apresentar novo Orçamento suplementar (rectificativo, nunca!), como acabou de fazer agora. Mas não deixa de ser curioso que os especialistas do EIU tenham vindo a Portugal para uma conferência à porta fechada em que participaram, entre outros, o primeiro-ministro e o governador do Banco de Portugal, para além de representantes de empresas como a Sonae, Alcatel, BES, Mota Engil ou SIBS, conforme noticiou a agência Lusa. Por quê longe dos holofotes, se no relatório divulgado antes da conferência os especialistas do Economist assinalavam o facto de 2009 ser um ano de «ciclo eleitoral exigente» e também de «recessão severa»? A resposta não parece estar na intervenção de Sócrates na referida reunião, de que os portugueses souberam pelo resumo a que os media tiveram acesso, já que este se limitou ao discurso do costume, ou seja, que as opções tomadas nos últimos anos permitem fazer face à crise com toda a confiança. A resposta parece estar, isso sim, no facto de Portugal se perfilar como um «caso de estudo», que os senhores do capital estão muito interessados em acompanhar. Ou seja, num cenário negro como o breu, e em ano de «ciclo eleitoral exigente», como se vão comportar as massas? Será que Portugal corre o risco de ficar «ingovernável», como tem insistentemente dito Mário Soares e outros comentadores da nossa praça? Será que os explorados se revoltam? Será que as forças de esquerda se reforçam através do voto? Será que será preciso – como já alguns dos mesmos de sempre defendem – garantir pela engenharia eleitoral o que não se garante nas urnas?
As perguntas são muitas e sérias. O debate, entre quem tem e quer continuar a ter a faca e o queijo na mão, esse só podia ser mesmo à porta fechada, onde se cozinham as «soluções» para fazer face à crise do capitalismo.


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