Jerónimo de Sousa sobre as medidas anti-crise

Respostas tardias e insuficientes

O primeiro-ministro foi ao Parlamento anunciar algumas medidas anti-crise, como o aumento em mil milhões de euros de capital social da Caixa Geral de Depósitos. «Dar o exemplo aos outros bancos» foi a justificação dada, num contexto, afirmou, em que o «país nunca precisou tanto do banco público».

Governo passou da negação à dramatização da crise

Foi no debate quinzenal, na passada semana, no decurso do qual voltou a ficar patente a mudança de registo no discurso oficial do Governo relativamente à crise que, em poucos dias, como salientou o Secretário-geral do PCP, «passou da negação à dramatização, com o objectivo claro de tentar desresponsabilizar-se daquilo que andou a fazer nestes três anos e meio».
Esta foi uma das notas salientes num debate onde José Sócrates acabou por não quantificar, apesar de instado a fazê-lo, os efeitos do seu plano de combate à crise ao nível do produto interno bruto (PIB) e do desemprego.
Medidas que no seu conjunto surgem tardiamente, a reboque dos acontecimentos, «em vez de uma reacção antecipada», como observou Jerónimo de Sousa, que disse estar hoje a assistir-se ao Governo «a correr atrás do prejuízo, nalguns casos com danos irremediáveis», de que são testemunho a «derrapagem da economia, as falências, o sufoco do nosso aparelho produtivo, o desemprego, a pobreza, a precariedade, a manutenção das desigualdades e das injustiças, a perda do poder de compra».
Um quadro negro de que Sócrates não gosta de ouvir falar, como voltou a constatar-se, levando-o a considerar, repetindo uma ideia gasta e batida, que é tudo uma questão de má vontade dos comunistas, que disse serem incapazes de elogiar uma medida da governação.
E para atestar o seu bom governo e responder aos que falam no agravamento das desigualdades até foi buscar os mais recentes dados do INE para concluir que houve uma diminuição no nosso País do fosso entre os 20% mais ricos e os 20% mais pobres (em 2007, essa diferença foi de 6,5%, sendo de 6,8% em 2006).
Recurso às estatísticas por parte de Sócrates que levou o dirigente comunista a lembrar-lhe que omitira nesse relatório do INE «o estado do poder de compra dos portugueses, que regressou a 1997». E, mais à frente, perguntou ainda a Sócrates se se dá «por contente com a baixa de três décimas», convidando-o de novo a pronunciar-se sobre o lugar ocupado por Portugal no plano das desigualdades na distribuição do rendimento. «E diga lá se essa pequena baixa não foi alcançada atingindo particularmente classes e camadas intermédias», desafiou, sem obter resposta, Jerónimo de Sousa.

Crise tem costas largas

Indo ao ponto fulcral da questão política colocada pela crise, o líder comunista perguntou se tudo o que está a acontecer, como a ofensiva levada a cabo no plano interno contra os direitos dos trabalhadores, «desabou sobre o País há um, dois ou três meses».
«É tudo consequência da crise internacional ou há aqui responsabilidades da governação PS?», inquiriu, referindo, a este respeito, as propostas apresentadas há meses pelo PCP quanto à «necessidade do aumento do investimento público, flexibilização do défice e adopção de medidas de excepção de apoio às micro e pequenas empresas».
Daí a conclusão de que a resposta do Governo é manifestamente insuficiente, faltando-lhe, na perspectiva do PCP, uma questão essencial: «a valorização dos salários, pensões e reformas, tanto do ponto de vista da justiça social, como do desenvolvimento do mercado interno», matérias a que Sócrates fugiu, não proferindo uma palavra, mesmo depois de Jerónimo de Sousa lhe ter feito notar essa sintomática omissão.
Por isso Sócrates foi alvo da acusação de estar a tentar sacudir a água do capote quanto às suas responsabilidades próprias pelo que está a acontecer. «Para o Governo a crise não tem apenas as costas largas, mas tem as costas todas, significando que não tem nenhuma responsabilidade sobre o agravamento da situação nacional», sublinhou o dirigente comunista, recordando, entre outras medidas negativas do Governo, a «experiência muito dolorosa em relação à política de emprego», com o corte do subsídio de desemprego a milhares de trabalhadores ou «quando quer dar a força do exemplo e despedir no Ministério da Agricultura 200 trabalhadores técnicos».

Matérias incómodas

Sobre as medidas tomadas em relação ao sector automóvel, que admitiu «serem de considerar», Jerónimo inquiriu por que razão não é estendido «esse apoio às empresas de componentes, às empresas de reparações ou ao mercado retalhista de sector».
Igualmente sem resposta do primeiro-ministro ficou a questão de saber se «está ou não disponível para considerar o alargamento do subsídio de desemprego, repondo aquilo que existia antes dessa decisão profundamente injusta».
Outra matéria introduzida no debate por Jerónimo de Sousa foi a alegada recuperação do poder de compra anunciada por Sócrates, tendo em conta a baixa dos preços e da inflação. «Como é que isto acerta com a realidade?», perguntou, quando mesmo agora o País foi confrontado com o anúncio do aumento do pão na casa dos 4,5 por cento, da electricidade na casa dos 4,5 %».
Por último, o Secretário-geral do PCP falou dos avales à banca para concessão de crédito às pequenas e médias empresas, assinalando que o «Governo passou do apelo ao coração dos banqueiros para a ameaça pelo ministro das Finanças, caso não cumpram os objectivos desses programas».
«Não apele, não ameace. Tendo a possibilidade de concretizar esse apoio, use a intervenção da administração, através da banca pública, do IAPMEI, e verá que a banca deixa de estar na impunidade em que tem vivido», aconselhou Jerónimo de Sousa.


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