«Cortem-lhe a cabeça»

Carlos Gonçalves
Aqui se volta ao livro de Lewis Carroll e à intervenção recente de M. Alegre. Na «Alice no País das Maravilhas», a «Rainha de Copas» gritava incansável «cortem-lhe a cabeça!», mas não passava da proclamação - «é tudo imaginação dela, nunca chegou a executar ninguém», explicava o grifo.
A semana passada, aqui se escreveu, com verdade, que Alegre votou a favor do OE, o instrumento mais essencial da continuidade da política de direita, que trouxe o País até esta situação de crise, em rápido agravamento, e que votou positivamente a salvação dos banqueiros do BPN (e não só), que abicharam lucros obscenos e vão agora concentrar ainda mais capitais. Mas escreveu-se também que se tinha abstido no Código de Trabalho – um erro de informação, que aqui se rectifica para os efeitos devidos. Alegre votou contra e esse é um facto a registar, já que o fez apenas meia dúzia de vezes na legislatura. Fica também registado que o seu voto só foi confirmado quando ficou garantida a aprovação da legislação que dá corpo a esta ofensiva brutal contra os direitos dos trabalhadores.
No rescaldo veio a entrevista de meia capa mais seis páginas do DN de domingo, que foi tratada em certos media como se cortasse a cabeça a Sócrates. Mas em substância diz Alegre – que já passou o «tempo e a idade» (projecto nunca houve!) de disputar o poder no PS, que está em «reflexão» sobre participar em campanha eleitoral, desde que não apoie «pessoas» (quem?) «que não têm a ver» com ele – não é o caso de Sócrates com quem tem «boa relação pessoal» -, diz que «dificilmente» será candidato a deputado (só a Presidente da AR?), sobre presidenciais é o novo «Tabu», repete os números da votação anterior, e vai falando da «forte corrente» e do «dever cívico» – quando é que começa a «vaga de fundo»(?).
Sobre o PCP diz «não parece que queira aliança nenhuma», «nunca a quis»- assim se ilude sem escrúpulos a questão da ruptura com a política de direita e do caminho da construção da alternativa -, mas já no BE «há pessoas que tentam criar pontes», Louçã, como Sócrates, é «pessoa de qualidade».
De Alegre registe-se a teimosia. Há anos que esbraceja a sua «oposição» aos Governos do PS e às suas políticas, mas sobra apenas a «florzinha de esquerda» na casaca da política de direita.
Proclama «cortem-lhe a cabeça» -, mas «é tudo imaginação».


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