30 mil na rua

Margarida Botelho
A provar como é verdadeira a afirmação de que quem não lê o Avante! pouco sabe das lutas no País e no mundo, foi preciso esperar por quinta-feira para conhecer um relato amplo e sério do que foi a luta dos estudantes do ensino básico e secundário no dia 5 de Novembro. Mais de 30 mil estudantes saíram à rua em todo o país contra o estatuto do aluno, o novo modelo de gestão das escolas e os exames nacionais.
Nenhum profissional com critérios jornalísticos sérios tem dúvidas de que isto é notícia. Mas o dia nacional de luta passou mais que discretamente pelos principais órgãos de comunicação social. E onde passou, o tom geral foi o do folclore: sucederam-se as inevitáveis entrevistas a estudantes menos claros na explicação dos motivos da luta, os jornalistas deslumbrados pelas sms, as acusações de manipulação do costume. E nada que pudesse dar a ideia da verdadeira amplitude do protesto.
A Juventude Socialista, que raramente se ouve - e nunca a falar dos problemas da juventude portuguesa -, desdobrou-se em declarações acusando os estudantes do ensino secundário de serem manipulados pela JCP. O secretário de Estado cobriu-se de ridículo ao afirmar terem sido «avistados militantes de juventudes partidárias» à porta de escolas. É a velha teoria da lavagem ao cérebro, típica de quem só sabe relacionar-se de forma oportunista com os outros e de quem subestima a inteligência dos estudantes. Claro que nem lhes passa pela cabeça que a identificação dos estudantes com as reivindicações da JCP e do Partido para a política educativa se devam ao facto de serem justas, discutidas e construídas com eles.
Em nenhum momento – e a excepção confirmará a regra – foram ouvidos os dirigentes associativos estudantis que convocaram e dirigiram o dia de luta. Esta ausência reflecte uma maneira de olhar a juventude que só convém ao Governo e aos que o apoiam. A ideia de jovenzinhos rebeldes e inconsequentes, desorganizados, isolados, egoístas, com gritos de alma efémeros e sem saber o que querem, sem interesse pela política nem pelo futuro. Mas não há silenciamento nem caricatura que disfarce que a juventude portuguesa reflecte, se organiza e luta!


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