Trucide-se
Não há como uma boa crise do sistema capitalista para se ouvir falar de dinheiro gordo, daquele com muitos zeros com que a maioria dos mortais sonha sem que algum dia lhe tenha visto o rasto ou seja sequer capaz de imaginar o que na verdade significa. Dos EUA à Alemanha, da Itália à Bélgica, da Irlanda a Portugal, só para citar alguns casos, do que mais se tem falado nos últimos dias é de dinheiro, muito dinheiro, fazendo jus à célebre frase – «é a economia, estúpido» – sobre o que na maior parte dos casos domina as atenções públicas.
É bem verdade que antes da crise, quer dizer, aqui há meia dúzia de meses, também se falava de dinheiro, pelo menos em Portugal, mas nessa altura era para anunciar lucros, tanto mais chorudos quanto maiores os sacrifícios impostos aos trabalhadores e às famílias em geral em nome da recuperação da economia. Ele era lucros na banca, nos seguros, nas telecomunicações, na energia..., tantos ou tão poucos que até houve quem se lembrasse de protestar, calcule-se, com os juros da casa ou os anunciados aumentos da electricidade, por exemplo, clamando estar com a corda na garganta, dizendo que isto assim não pode ser, enfim, o costume.
Está à vista que não tinham razão. Pois se com lucros não se evitou a crise, imagine-se sem eles! O que vale é que o Governo está atento – pelo menos o nosso – e tal como fez orelhas moucas aos pés rapados, não se deixando influenciar por pedinchices, também não foi nas cantigas dos que passam a vida a exigir «menos Estado, melhor Estado» e mal deu por ela – a crise – não esteve com funfns nem gaitinhas, interveio e pronto. Primeiro foi a fatia de 20 mil milhões para o capital financeiro não ficar em más companhias, depois foi mais uma dose de 4 mil milhões para a banca se recapitalizar, e no início do mês lançou mão ao BPN para impedir o naufrágio do banco. Os rios de tinta que a última medida fez correr só revelam como o povo português (ou quem por ele fala e escreve) é mesquinho. Então não se está mesmo a ver que o Banco de Portugal – a quem cabe supervisionar a coisa – não sendo polícia, não podia nem devia intervir nos negócios privados que os sucessivos gestores e accionistas andaram a fazer nos últimos seis anos? Ainda por cima sendo público e notório que grande parte deles, por ventura a maioria, têm ou tiveram cartão do PSD e currículo de ex-governantes e afins, aval mais do que suficiente para assegurar pelo menos a excelência das respectivas acções? É claro que no melhor pano cai a nódoa, que é como quem diz qualquer um se engana, mas para isso mesmo é que temos um Governo, para intervir no momento próprio em nome dos supremos interesses da Nação. Só gente irresponsável é capaz de pensar que cabia aos accionistas – os que embolsaram dividendos e os puseram a salvo – resolver a situação dos depositantes. Um tal despautério nunca se viu. Por esse andar ainda o País ficava sem lucros, logo sem crédito nem futuro.
É por estas e por outras que tem toda a razão o secretário de Estado da Administração Pública, Gonçalo dos Santos, quando diz, como fez há dias ao falar da reforma da Administração Pública, que os «trabalhadores, serviços e dirigentes que não estejam com a reforma serão trucidados». Nem mais. Trucide-se o povo, salve-se o capital.
É bem verdade que antes da crise, quer dizer, aqui há meia dúzia de meses, também se falava de dinheiro, pelo menos em Portugal, mas nessa altura era para anunciar lucros, tanto mais chorudos quanto maiores os sacrifícios impostos aos trabalhadores e às famílias em geral em nome da recuperação da economia. Ele era lucros na banca, nos seguros, nas telecomunicações, na energia..., tantos ou tão poucos que até houve quem se lembrasse de protestar, calcule-se, com os juros da casa ou os anunciados aumentos da electricidade, por exemplo, clamando estar com a corda na garganta, dizendo que isto assim não pode ser, enfim, o costume.
Está à vista que não tinham razão. Pois se com lucros não se evitou a crise, imagine-se sem eles! O que vale é que o Governo está atento – pelo menos o nosso – e tal como fez orelhas moucas aos pés rapados, não se deixando influenciar por pedinchices, também não foi nas cantigas dos que passam a vida a exigir «menos Estado, melhor Estado» e mal deu por ela – a crise – não esteve com funfns nem gaitinhas, interveio e pronto. Primeiro foi a fatia de 20 mil milhões para o capital financeiro não ficar em más companhias, depois foi mais uma dose de 4 mil milhões para a banca se recapitalizar, e no início do mês lançou mão ao BPN para impedir o naufrágio do banco. Os rios de tinta que a última medida fez correr só revelam como o povo português (ou quem por ele fala e escreve) é mesquinho. Então não se está mesmo a ver que o Banco de Portugal – a quem cabe supervisionar a coisa – não sendo polícia, não podia nem devia intervir nos negócios privados que os sucessivos gestores e accionistas andaram a fazer nos últimos seis anos? Ainda por cima sendo público e notório que grande parte deles, por ventura a maioria, têm ou tiveram cartão do PSD e currículo de ex-governantes e afins, aval mais do que suficiente para assegurar pelo menos a excelência das respectivas acções? É claro que no melhor pano cai a nódoa, que é como quem diz qualquer um se engana, mas para isso mesmo é que temos um Governo, para intervir no momento próprio em nome dos supremos interesses da Nação. Só gente irresponsável é capaz de pensar que cabia aos accionistas – os que embolsaram dividendos e os puseram a salvo – resolver a situação dos depositantes. Um tal despautério nunca se viu. Por esse andar ainda o País ficava sem lucros, logo sem crédito nem futuro.
É por estas e por outras que tem toda a razão o secretário de Estado da Administração Pública, Gonçalo dos Santos, quando diz, como fez há dias ao falar da reforma da Administração Pública, que os «trabalhadores, serviços e dirigentes que não estejam com a reforma serão trucidados». Nem mais. Trucide-se o povo, salve-se o capital.