Conversa em família

João Frazão
Fátima Campos Ferreira, sempre pressurosa a procurar as explicações para as coisas, sempre pronta a encontrar os prós e os contras de todos os factos políticos, convidou esta semana Faria de Oliveira, Ricardo Salgado, Carlos Santos Ferreira e Fernando Ulrich, respectivamente presidentes da CGD, do BES, do BCP e do BPI.
O mote era a decisão do Governo de endossar um aval no valor de vinte mil milhões de euros (em algarismos escreve-se dois seguido de dez zeros) à banca portuguesa, para fazer face à crise.
Na plateia, toda uma panóplia de altos quadros da banca nacional, entre os quais pontuam ex-ministros do PS e do PSD.
Só o facto em si já daria para gastar muita tinta. Desistindo de tentar explicar porque é que uns estavam de um lado e os outros do outro, limitamo-nos a registar que a opção da apresentadora (para não variar muito) foi falar só com os pró, excluindo qualquer contraditório, afastando liminarmente qualquer hipótese de dúvida ou questionamento, que pudesse por em causa as verdades absolutas dos senhores do dinheiro português.
Concentremo-nos na grande ideia que saiu de tão plural conclave – a banca está bem e recomenda-se, e o tal aval dos 20.000.000.000€ (é mesmo isto!) até seria dispensável, não fosse a preocupação dos banqueiros nacionais com as empresas e as famílias.
Sim, porque isto é tudo para facilitar o empréstimo de dinheiro às famílias que precisam, garantia um. Este aval é às empresas e ao desenvolvimento do País, afiançava outro.
Até porque, adiantava Faria de Oliveira, o sistema financeiro é o coração da economia. E como lá fora houve uns malandros que aplicaram mal os dinheiros, prejudicando a confiança no sistema bancário, é necessário vir este aval, para recuperar a liquidez do coração. Assim uma espécie de transfusão.
Ouvido isto, dei por mim a perguntar se eu sonhei ou se li mesmo em qualquer lado que, só nos últimos quatro anos, estes quatro maiores bancos portugueses arrecadaram qualquer coisa como mais de oito mil milhões de euros, em lucros líquidos, à razão de quase 8 milhões de euros por dia, sugados às famílias e às pequenas empresas em juros astronómicos e criativas comissões?
Se é ou não verdade que, só nos primeiros seis meses deste ano (em plena crise, portanto), esta rapaziada embolsou nada menos que setecentos e vinte e sete milhões de euros?
É evidente que, com tanto pró, Fátima Campos Ferreira esqueceu-se de perguntar onde é que eles meteram esses lucros que agora que faziam falta não aparecem?
Resta-nos o consolo de, perante dificuldades tão profundas das famílias portuguesas, termos oportunidade de assistir, naquela conversa em família, a quatro oradores que transpiravam tranquilidade e confiança, e que até aproveitaram para uns namoros de circunstância e uns piropos aqui e além. Enfim, uma amena cavaqueira.


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