Sanguessugas

Jorge Cadima

O grande capital vai tentar resolver a sua crise à custa dos povos

A implosão do sistema financeiro dos EUA transformou-se, na semana passada, num enorme crash bolsista mundial, comparável ao de 1929. O índice Dow Jones, da Bolsa de Nova Iorque, encerrou a semana perdendo 18.2% do seu valor (e mais de 40% do seu valor em relação ao pico atingido há menos de um ano). Nas bolsas europeias a queda ultrapassou os 20%. A desorientação dos principais dirigentes do capitalismo mundial é patente. O Presidente do FMI avisa que estamos «à beira da derrocada» (BBC, 11.10.08). Vai agora começar a disputa para saber quem irá pagar os custos do gigantesco buraco negro criado pela grande finança. As colossais quantias de dinheiros públicos que estão a ser atirados à crise numa tentativa de estancar o pânico, mostram que o grande capital vai tentar resolver a sua crise à custa dos povos. Já se estima que o défice orçamental dos EUA em 2009 chegue aos «2 triliões de dólares» (Bloomberg, 10.10.08). Que é mais ou menos o PIB do Reino Unido. Depois de enterrar os bancos, vão enterrar os Estados. Que o diga a Islândia.

Em apenas 5 anos (2003-07) os directores dos 5 maiores bancos de investimento de Wall Street (todos em apuros ou já falidos) pagaram-se (a si próprios) mais de 3 mil milhões de dólares (Bloomberg, 26.9.08). Para se ter uma ideia do montante em causa lembre-se que a legislação visando salvar o sistema financeiro americano (passando os prejuízos dos bancos para o erário público) e que foi inicialmente recusada pela Câmara de Representantes dos EUA, valia 700 mil milhões de dólares. Não é preciso perceber nada de economia para perceber que o que se passa (e por vontade deles, continuará a acontecer) é uma gigantesca transferência de riqueza dos bolsos de quem trabalha para os bolsos de uma reduzida classe de parasitas. A história é ainda mais elucidativa porque um desses directores – aliás, o principal director (CEO) do banco Goldman Sachs entre 1999 e 2006 – é o actual Ministro do Tesouro dos EUA, Henry Paulson. De acordo com a legislação por ele apresentada ao Congresso, fica responsável único por decidir como serão gastos os 700 mil milhões de dólares do pacote salva-bancos e não pode ser levado a tribunal, nem sujeito a qualquer procedimento administrativo, pelas decisões que tome. O que é mais ou menos como pôr a raposa a tomar conta do galinheiro e partir para férias. Para não ficar atrás, os directores da maior seguradora mundial, a AIG, reuniram-se, uma semana após ter recebido 85 mil milhões de dólares de dinheiros públicos para salvar a sua falida empresa. O retiro decorreu num hotel à beira-praia na Califórnia, e a conta chegou quase ao meio milhão de dólares, incluíndo quase 150 mil dólares em banquetes (Fox, 7.10.08).

Estes factos são o espelho do que foram os «anos loucos» do capitalismo neste virar de milénio. Países e continentes inteiros (como África ou a América Latina) foram reduzidos à miséria para alimentar uma classe que acumulou riquezas obscenas, parasitando e sugando os frutos do trabalho da Humanidade. Destruíram-se comunidades e indústrias inteiras porque «os mercados» assim o exigiam, e «o contribuinte» não podia sustentar «ineficiências». Tivemos que suportar os defensores e promotores do capitalismo selvagem (como José Sócrates) a dizer que o problema eram os funcionários públicos, os trabalhadores com contratos, os sindicatos, os comunistas, as leis laborais, os bairros sociais. Mas quem provocou a derrocada que agora varre o planeta? Foram os «respeitáveis» senhores do dinheiro, os famosos «mercados», que andaram a saquear à grande e à americana. E agora pedem «ao contribuinte» para suportar os custos da sua pilhagem. Com os directores de bancos, que levaram milhares de milhões para casa, a gerir a coisa.
Está na hora de pôr fim a esta praga.


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