Ricos e pobres, antes e depois do Ike

Glória Rubac
Os furiosos ventos do furacão Ike, que se fizeram sentir desde as primeiras horas do passado dia 13 de Setembro, deixaram um rasto de devastação na zona Oeste do Estado do Luisiana e em 35 condados do Estado do Texas. A ilha de Galveston e a Península de Bolívar travaram o ímpeto do Ike no continente, mas mesmo assim a tempestade atingiu fortemente milhares de comunidades costeiras situadas ao longo do Golfo do México.
A comunicação social noticiou que o furacão não foi assim tão intenso e que as suas consequências afectaram todos por igual, que o Ike foi um «nivelador». É verdade que toda a gente ficou sem energia, mas também não é menos verdade que se patrões e trabalhadores tiveram o mesmo problema, os primeiros têm nas suas mansões potentes geradores dos quais os segundos não dispõem, e, por isso, se viram em filas intermináveis para comprar água e gelo.
Dez dias depois da passagem do Ike, em Houston quase um milhão de pessoas ainda carecia de electricidade. Quase toda a metade oriental da cidade estava sem energia, afectando zonas urbanas da classe trabalhadora, incluindo as povoadas por comunidades negra e latina, e as áreas que congregam as poluentes refinarias de petróleo e indústrias químicas. Foi ainda decretado um recolher obrigatório, cumprido com zelo policial contra a classe trabalhadora. Os «sortudos» receberam senhas no valor de 500 dólares, outros foram encaminhados directamente para a prisão.
A Agência Federal de Emergência (FEMA, na sigla inglesa, congénere da Protecção Civil) demorou três dias a estabelecer os chamados pontos de distribuição, onde a população recebia dois sacos de gelo e uma caixa de água engarrafada. Apenas seis dias depois, estes centros de auxílio foram desmontados, deixando as pessoas entregues às empresas privadas, às cantinas populares e às organizações locais.
Com o gelo e a água, foram distribuídos pela FEMA panfletos que instavam os cidadãos a pedirem ajuda telefonicamente ou online. Mas como é que as pessoas pedem ajuda via Internet se não têm energia eléctrica? Para mais, a linha de atendimento da FEMA estava... indisponível.
A polícia retirou à força pessoas alojadas em motéis alegando que a FEMA não as tinha arroladas nas listas oficiais. Uma mulher testemunhou que a Agência lhe disse para não se preocupar, que pagaria os custos do motel até que lhe fosse possível regressar a casa. Foi posteriormente ameaçada de prisão se mantivesse a recusa de abandonar o alojamento provisório.

«Nivelador o tanas!»

«Nivelador o tanas!», afirmou Lenwood Johnson, membro da Associação de Moradores Homens Livres. «O Ike não foi um nivelador e as consequências não foram iguais para todos. Os pobres são sempre quem paga a mais elevada factura das catástrofes naturais», expressou.
O furacão Ike também deixou os residentes em instituições públicas, lares e hospitais sem electricidade durante dias. Johnson contou que passou mais de 24 horas ao telefone procurando contactar as autoridades responsáveis pelo restabelecimento da energia. A sua principal preocupação eram os idosos e os doentes, em risco de vida caso a situação não fosse rapidamente resolvida.
Pelo contrário, em River Oaks, um dos bairros mais ricos de Houston, apenas oito horas depois da passagem do furacão, a vida decorria como se nada tivesse acontecido. Na maioria das mansões havia luz eléctrica e nos jardins já se removiam os ramos e o lixo para que os relvados cuidados, briosos, se mantivessem impecáveis. Muitas mulheres sairam de casa para o seu jogging matinal da praxe, alheias à deterioração que grassava noutras áreas da metrópole.
Galveston, a região mais duramente atingida na Costa do Golfo, ordenou a evacuação dos seus residentes, excepção feita aos mil detidos no estabelecimento prisional local, os quais permaneceram sem água e sem instalações sanitárias capazes de funcionarem durante dez dias.
Os cortes de corrente em Huntsville, a Norte de Houston, também não tiveram impacto na máquina de morte que ali se situa. A 17 de Setembro, a prisão não tinha electricidade, mas as autoridades arranjaram maneira de executar William Murray, o nono condenado à morte no Texas só no decurso do corrente ano.
Cerca de dois mil trabalhadores indocumentados vivem e trabalham em Galveston. A maioria permaneceu na ilha temendo a deportação. Viveram os dias após a passagem do Ike em condições insalubres.
Não acredite se alguém lhe disser que todos foram afectados de forma igual. Os ricos continuam as suas vidas sem grandes alterações, ao passo que os pobres dificilmente recuperam os danos materiais e psicológicos causados pela tempestade e pela dura realidade subsequente.


Mais artigos de: Internacional

Resultados confirmam reforço dos comunistas

O Partido Comunista do Brasil (PCdoB) superou com êxito o desafio eleitoral autárquico de domingo passado, quadriplicando o número de prefeitos face a 2004, agora com 39, e aumentando em 122,7 por cento o total de vereadores, superando a barreira dos 600 eleitos nos executivos municipais.

Crise imparável

A derrocada do sistema financeiro capitalista mundial chegou em força à Europa. Às nacionalizações de prejuízos assumidas pelos governos, seguem-se a recessão e as fusões.

Trabalhadores na frente da luta

A luta dos trabalhadores e do povo colombiano contra a política do governo liderado por Álvaro Uribe está a abrir caminho à transformação social e democrática no país, considera Jaime Caycedo, secretário-geral do Partido Comunista Colombiano (PCC).Na sessão de apresentação das listas unitárias para a eleição de delegados...

Sem solução militar

O general Mark Carleton-Smith, principal responsável das forças armadas britânico no Afeganistão, afirmou numa entrevista publicada domingo pelo Sunday Times que uma vitória militar no Afeganistão é impossível e que a única saída para o conflito é a negociação com os insurrectos.Na entrevista, Smith explica que é...