Perdidos e achados
O Banco Mundial acaba de descobrir que as suas estatísticas deixaram escapar 400 milhões (quatrocentos milhões, quatrocentos) de pobres no mundo. Quer isto dizer que os números da pobreza estavam subavaliados, e que ao invés dos cerca de mil milhões de pessoas a viver com menos de 1,25 dólares por dia nos países em desenvolvimento, normalmente apontadas pela instituição, há pelo menos 1400 milhões (uma em cada quatro) nessas condições.
O caso é grave, apesar de o Banco Mundial se congratular com o facto de as suas estimativas terem «melhorado graças a dados mais fiáveis sobre o custo de vida».
Em primeiro lugar, é grave porque 400 milhões, seja do que for, é uma enormidade que não cabe atrás de qualquer porta, ou dentro de um contentor, ou debaixo da ponte. Tratando-se de pessoas, é mais grave ainda, porque é suposto esta gente – e é de gente que se trata, por mais que se tente reduzi-la a números – viva em qualquer lado, respire, sofra, se movimente na incessante procura de subsistência.
Em segundo lugar, é grave porque 400 milhões de pobres a mais é a prova provada da falência das receitas impostas pelo Banco Mundial e pelo Fundo Monetário Internacional aos países em desenvolvimento para o pretenso saneamento das respectivas economias, e que se traduzem invariavelmente na redução drástica dos orçamentos sociais, contenção salarial e submissão aos interesses do grande capital.
Em terceiro lugar, é grave porque 400 milhões de pobres a mais é o reconhecimento de que, mesmo com o miserável patamar – 1,25 dólares por dia – estabelecido para situar o limiar da indigência, a contagem da pobreza continua a ser alvo de engenharias numéricas.
Em quarto lugar, é grave porque 400 milhões de pobres a mais é a confirmação de que, apesar dos critérios mais do que duvidosos usados para estimar o número de pobres – ao estabelecer a paridade do poder de compra, o Banco Mundial parte do princípio de que nos países em desenvolvimento se pode comprar, com a mesma verba insignificante, três a sete vezes mais do que nos EUA – a pobreza continua de facto a aumentar.
Finalmente, e mais importante de tudo o que já se disse, é grave pelo que traduz quanto à essência do que o Banco Mundial entende por pobreza. De acordo com a fasquia adoptada mais recentemente pela instituição, o limiar da pobreza corresponde nos EUA a um orçamento mensal por pessoa de 41 dólares, e pobres são os que dispõem de um rendimento inferior (em média, menos 30 por cento daquele valor).
Com tal definição (seria interessante ver os peritos do Banco Mundial passar pela experiência de «viver» com um tal rendimento), para ser pobre não basta «apenas» não poder prover às necessidades básicas. É preciso muito mais esforço, muito mais persistência, muito mais determinação, e conseguir estar vivo com menos de um dólar por dia. E assim se conclui, nesta viagem pela secção de perdidos e achados do mundo capitalista, que as centenas de milhões de vítimas das políticas do Banco Mundial que ainda auferem 1,25 dólares por dia não são pobres, que os reformados com pensões de miséria são afinal remediados, e que os trabalhadores explorados a receber o salário mínimo ou pouco mais são uns privilegiados. Se mesmo assim não se atingir o objectivo do milénio de, até 2015, reduzir a metade a extrema pobreza, não há problema: baixa-se o limiar e as contas acabam por dar certas.
O caso é grave, apesar de o Banco Mundial se congratular com o facto de as suas estimativas terem «melhorado graças a dados mais fiáveis sobre o custo de vida».
Em primeiro lugar, é grave porque 400 milhões, seja do que for, é uma enormidade que não cabe atrás de qualquer porta, ou dentro de um contentor, ou debaixo da ponte. Tratando-se de pessoas, é mais grave ainda, porque é suposto esta gente – e é de gente que se trata, por mais que se tente reduzi-la a números – viva em qualquer lado, respire, sofra, se movimente na incessante procura de subsistência.
Em segundo lugar, é grave porque 400 milhões de pobres a mais é a prova provada da falência das receitas impostas pelo Banco Mundial e pelo Fundo Monetário Internacional aos países em desenvolvimento para o pretenso saneamento das respectivas economias, e que se traduzem invariavelmente na redução drástica dos orçamentos sociais, contenção salarial e submissão aos interesses do grande capital.
Em terceiro lugar, é grave porque 400 milhões de pobres a mais é o reconhecimento de que, mesmo com o miserável patamar – 1,25 dólares por dia – estabelecido para situar o limiar da indigência, a contagem da pobreza continua a ser alvo de engenharias numéricas.
Em quarto lugar, é grave porque 400 milhões de pobres a mais é a confirmação de que, apesar dos critérios mais do que duvidosos usados para estimar o número de pobres – ao estabelecer a paridade do poder de compra, o Banco Mundial parte do princípio de que nos países em desenvolvimento se pode comprar, com a mesma verba insignificante, três a sete vezes mais do que nos EUA – a pobreza continua de facto a aumentar.
Finalmente, e mais importante de tudo o que já se disse, é grave pelo que traduz quanto à essência do que o Banco Mundial entende por pobreza. De acordo com a fasquia adoptada mais recentemente pela instituição, o limiar da pobreza corresponde nos EUA a um orçamento mensal por pessoa de 41 dólares, e pobres são os que dispõem de um rendimento inferior (em média, menos 30 por cento daquele valor).
Com tal definição (seria interessante ver os peritos do Banco Mundial passar pela experiência de «viver» com um tal rendimento), para ser pobre não basta «apenas» não poder prover às necessidades básicas. É preciso muito mais esforço, muito mais persistência, muito mais determinação, e conseguir estar vivo com menos de um dólar por dia. E assim se conclui, nesta viagem pela secção de perdidos e achados do mundo capitalista, que as centenas de milhões de vítimas das políticas do Banco Mundial que ainda auferem 1,25 dólares por dia não são pobres, que os reformados com pensões de miséria são afinal remediados, e que os trabalhadores explorados a receber o salário mínimo ou pouco mais são uns privilegiados. Se mesmo assim não se atingir o objectivo do milénio de, até 2015, reduzir a metade a extrema pobreza, não há problema: baixa-se o limiar e as contas acabam por dar certas.