Falta de rima

Anabela Fino
Manuel Alegre fez as pazes com o PS de Sócrates e com o líder propriamente dito, estando na calha uma eventual/provável/conveniente «cooperação estratégica» com vista à cadeira de Belém, que estará em disputa em 2011. A hipótese é avançada pelo Sol, na edição de 15 de Agosto, que citando fontes das partes dá conta de dois almoços pós conclave da Trindade, o tal encontro da «esquerda» promovido pelo BE em finais de Maio, onde o poeta da política (ou será o político da poesia?) usou do verbo e da verve para zurzir no Governo e dar aos desencantados do PS a ilusão de que há no partido espaço para outra política.
Os repastos que juntaram Sócrates e Alegre – ao que consta, um em S. Bento e outro num restaurante lisboeta – são vistos pelas fontes do semanário como uma espécie de prelúdio para um possível casamento de conveniência. Por um lado, Alegre não desdenharia voltar a candidatar-se com o apoio do PS e da «esquerda» do Trindade; por outro lado, Sócrates encara Alegre, segundo o Sol escreve com todas as letras, como um «ás de trunfo» na estratégia das presidenciais, e, para já, como «uma caução de esquerda para o partido estancar o derrame de votos para o BE e o PCP nas várias eleições de 2009». Como explicou ao Sol um dirigente do PS não identificado, a Sócrates «também convém que exista alguma oposição interna». Sempre dá alguma esperança aos desiludidos, dizemos nós.
Certo, certo, é que foi já depois de um desses encontros que Sócrates afirmou, em entrevista à RTP, que «vive muito bem» com as críticas de Alegre, e este veio por seu turno a terreiro para defender o primeiro-ministro das aguilhoadas do movimento SEDES, dizendo que «pode haver muitas razões para criticar José Sócrates, mas não seguramente que esteja a governar para eleições».
Certo, certo, é que a caução, perdão, Alegre, não viu até à data nenhuma necessidade de questionar Sócrates quanto aos 133 000 novos empregos líquidos que terão sido criados desde a chegada do PS ao governo, nem abrir a boca mais do que o estritamente necessário para um voto piedoso no que ao Código de Trabalho diz respeito e que a sua bancada se propõe aprovar no Parlamento. Deve ser porque os temas não rimam à esquerda.


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