Guerra contra o Irão?

Rui Paz

Para atacar Teerão a partir de Tbilissi só seria necessário sobrevoar a Arménia

Avolumam-se sinais que apontam para a possibilidade de uma provocação militar contra o Irão pelos Estados Unidos. A deslocação de mais três frotas de guerra norte-americanas para o Médio Oriente aumenta em cinco vezes o poderio militar do Pentágono na região. Mais de 40 barcos de guerra e submarinos, em parte munidos de armas nucleares, ameaçam o Irão, um dos maiores produtores mundiais de petróleo. Uma presença militar tão grande no Golfo Pérsico só se registou durante a preparação da agressão contra o Iraque.
Conhecendo-se o desprezo pelo direito internacional e o vandalismo político-militar da administração norte-americana adensam-se os perigos de um incêndio incontrolável de todo o Médio Oriente.
Nenhum dos estados da região, com excepção de Israel, nem mesmo os regimes mais submissos e dependentes de Washington desejam servir de base para agredir o Irão. As recentes visitas do presidente iraniano a Bagdad, Cabul e à Turquia, país membro da NATO, são a prova da dificuldade do clã petrolífero de Bush & Cheney em ganhar os seus próprios aliados para mais uma loucura belicista.

O despoletar inesperado da aventura militar da Geórgia, país não muçulmano mais próximo do território persa, e a pressa de Washington em fabricar pretextos para ali aterrar «humanitariamente» não é indiferente à possível preparação de uma agressão contra o Irão. Para atacar Teerão a partir de Tbilissi só seria necessário sobrevoar a Arménia, um pequeno estado sem meios para defender o seu espaço aéreo nacional.
O jornalista Seymour Hesh - a quem se deve a revelação dos massacres de My Lai (1968) no Vietname e do centro de tortura de Abu Ghraib - relembra num artigo publicado no início de Julho no New York Times, intitulado «preparação para a batalha», que o Congresso norte-americano a pedido de Bush já aprovou no final do ano passado 400 milhões de dólares para operações encobertas dos serviços secretos contra Teerão. Tais operações compreendem o apoio a grupos separatistas e a forças sunitas fundamentalistas do tipo talibãs, como o Dschondollah (soldados de deus) que deverão segundo o método utilizado no desmembramento da Jugoslávia acicatar os ódios e conflitos étnicos e religiosos em território iraniano.

Seymour Hesh revela ainda que o vice-presidente Cheney chegou a propor a simulação no estreito de Ormuz de um ataque a navios de guerra dos Estados Unidos por embarcações rápidas norte-americanas pintadas de unidades da marinha iraniana com o objectivo de provocar uma agressão directa contra Teerão.
As propostas de resolução apresentadas no Congresso (HR 362 – House Resolution) e no Senado (SR 580 – Senate Resolution), visam o bloqueamento marítimo das exportações de petróleo refinado iraniano, o que nos termos do direito internacional equivale a um acto de guerra. Depois de ter mergulhado o Iraque num caos, o imperialismo aumenta o tom das ameaças contra o Irão. Lenine no prefácio ao «Imperialismo, Estado Superior do Capitalismo» (1920), obra de extraordinária actualidade, alerta para o holocausto que paira sobre a humanidade ao salientar que «o capitalismo transformou-se num sistema universal de subjugação colonial e de estrangulamento financeiro da imensa maioria da população do planeta por um punhado de países “avançados”. A partilha desse “saque” efectua-se entre duas ou três potências rapaces, armadas até aos dentes (...)que dominam o mundo e arrastam todo o planeta para a sua guerra pela partilha do seu saque».


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