O embuste

Anabela Fino
Sócrates voltou de férias – passadas algures em parte incerta, que depois do safari e da perna partida no esqui, ou vice-versa, que para o caso tanto dá, alguém o aconselhou a esconder essas manifestações exteriores de riqueza num país que se debate entre a tanga e o fio dental – voltou, dizíamos, igual a si próprio, mas com as pilhas recarregadas para novas e mais descaradas fanfarronices e demagogias.
Para inaugurar a sua «reentrée» política nada melhor do que uma inauguração em Santo Tirso, no caso simbólica porque a «coisa» a inaugurar, um «call center» da PT, só daqui a um ano estará pronta, e um discurso sobre o «empenhamento do Governo» na criação de emprego. Para ajudar à festa, qual cereja em cima do bolo, uns dados do Instituto Nacional de Estatística (INE) sobre a baixa do desemprego em três décimas, relativamente ao trimestre anterior, e de seis décimas se comparado com período homólogo de 2007. Mesmo sem ter ido a Pequim, Sócrates chamou os média, subiu ao pódio e auto-medalhou-se. Um verdadeiro artista.
Acontece, porém, que o manto da demagogia – não tão diáfano quanto isso – está assaz esburacado.
Vamos a factos. Os 1200 postos de trabalho directos que a Portugal Telecom (PT) vai criar em Santo Tirso correspondem, para menos, ao número de trabalhadores dispensados nos últimos dois anos. O relatório e contas da PT respeitante a 2007 refere um decréscimo de 1004 trabalhadores, e no que já vai de 2008 foram dispensados 267 efectivos.
A aposta no município com a mais elevada taxa de desemprego do País, onde só nos últimos seis meses se inscreveram mais de 1784 pessoas nos centros de desemprego, passa pela cedência de 3700 m2 de terrenos da autarquia para a construção do edifício da PT, bem como por «protocolos» não especificados da empresa com o Governo, via Ministério do Trabalho.
A escolha do interior, no caso o Vale do Ave, deve-se ao facto de a PT ter concluído que a fidelização dos funcionários é maior fora dos grandes centros, havendo menor rotatividade, o que rendibiliza o investimento na formação. Compreende-se: em regiões onde o desemprego compete em crescimento com os cogumelos, ninguém se pode dar ao luxo de desdenhar os fantásticos 700 euros de «salário médio» anunciados por Zeinal Bava, presidente da PT, que podem mesmo subir para uns astronómicos «mais de 1000 euros», segundo disse, no caso de técnicos de «grande qualidade». Um verdadeiro jackpot.
Acresce, ainda de acordo com as palavras de Bava, que na empresa «há quem trabalhe 20, 30 ou 40 horas por semana», pelo que não será preciso grande imaginação para prever o tipo de contratos a estabelecer com os novos trabalhadores, sob a capa protectora do Código de Trabalho que o PS quer aprovar.
Para Sócrates, que não faz distinção entre trabalho precário, trabalho sazonal, trabalho a tempo parcial, trabalho sem regras nem direitos, tudo isto é sinal de modernidade e desenvolvimento. Foi isso mesmo que disse em Santo Tirso, onde afirmou sem corar: «Não queremos continuar com uma política de baixos salários. Queremos competir nos mercados mais exigentes e aceitámos o desafio de modernização da nossa economia. No Vale do Ave há bons exemplos disso».
Palavras para quê? É a política de embuste no seu melhor.


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