Petróleo

O preço da especulação

As fortes quebras do preço do petróleo verificadas no início da semana passada (11 dólares num só dia) provaram, a quem ainda tinha dúvidas, que a alta do ouro negro resulta sobretudo de uma bolha especulativa que pode estar prestes a rebentar.

Apenas cerca de dois por cento do petróleo transaccionado existe

Depois da bolha «informática», seguiu-se a do imobiliário nos EUA e, com o fim desta, em Agosto de 2007, foi a vez de os mercados de matérias-primas, designadamente de petróleo, sentirem os efeitos da transferência maciça de capitais especulativos.
Num só ano, os preços do crude mais que duplicaram chegando a roçar a barreira psicológica dos 150 dólares. Contudo, ao contrário do que se poderia pensar, não existe actualmente qualquer penúria de petróleo nos mercados internacionais. O jogo especulativo baseia-se em previsões e a maioria do petróleo transaccionado nem sequer ainda foi produzido.
Numa entrevista ao diário espanhol, Expansion, (02.07), o secretário-geral da Organização de Países Exportadores de Petróleo (OPEP), Abdalla Salem El-Badri, não nega a influência de factores geopolíticos no curso internacional do petróleo. Todavia, observa que esses factores têm estado sempre presentes nas últimas décadas e sublinha que «não há um problema de volume, de produção».
Numa outra entrevista, publicada no mesmo dia no El Pais, este responsável foi ainda mais explícito ao afirmar que «a falta de oferta é um mito», notando de seguida que «não há filas para o petróleo, toda a procura está satisfeita».
A origem da escalada dos preços não reside assim na escassez de um produto face às necessidades actuais, mas sim em conjecturas futuras: «Basta ver o volume de petróleo que se contrata diariamente nos mercados, pouco mais de dois por cento são contratos reais, no sentido de barris físicos».
O resto é «petróleo de papel», «não é petróleo real», explicou El-Badri, aludindo à infinidade de sofisticados instrumentos financeiros de derivados, futuros, opções, etc., amplamente utilizados na especulação e cujo valor está desligado da relação existente num determinado momento entre a oferta e a procura de um produto em concreto.
No mercado de derivados, o que hoje se compra só será pago e entregue numa data futura, nos próximos meses ou mesmo passados vários anos. Contudo, os valores negociados de algo que ainda não existe, reflectem-se de imediato no curso do mercado de produtos reais, afectando a economia dos países e a vida das populações.

Lucros perigosos

Neste mercado de produtos faz-de-conta, as regras são as mesmas de sempre: comprar barato e vender mais caro. E quando a tendência é de subida dos preços, como a que se tem verificado no mercado do petróleo, o lucro está praticamente assegurado num determinado período, o que atrai quantidades maciças de capital de outros sectores menos rentáveis, contribuindo para manter a bolha artificialmente insuflada. O inevitável rebentamento provocará falências e despedimentos, mais crise em cima da crise que a corrida especulativa tem vindo a criar.
Sobre este assunto, o responsável da OPEP não tem dúvidas: «Se o mercado voltar a comportar-se segundo a relação entre a oferta e a procura, os preços baixarão. Se deixarmos o mercado aos especuladores, um dia o preço atinge os 140 dólares, no outro subirá até aos duzentos (…) Há muitos que estão a enriquecer com o mito de que falta petróleo» (El Pais, 02.07).
Contrariando uma ideia corrente, El-Badri salienta que não são os países produtores mas sim «os governos dos países consumidores», através dos impostos, «os que mais beneficiam com os altos preços dos carburantes».
Isto porque, recorda, «cerca de 85 por cento dos ingressos do petróleo dos países da OPEP retorna aos países consumidores, com esse dinheiro compramos têxteis, alimentos, matérias-primas ou produtos industriais aos Estados Unidos e à Europa».



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