Menos Estado, pior Estado

Margarida Botelho
As comissões de utentes da saúde de Almada denunciaram recentemente mais uma situação dramática no Serviço Nacional de Saúde. Em poucas semanas, três das quatro médicas que asseguravam a Unidade de Terapia da Mama do Hospital Garcia de Orta, onde são atendidas as mulheres doentes com cancro da mama, deixaram o serviço. Duas saíram para o privado, outra foi transferida. Em poucas semanas, a lista de espera subiu, diz-se em Almada, aos onze meses. Como pode uma única profissional assegurar este serviço? Como podem esperar estas mulheres, doentes oncológicas, onze longos meses por um atendimento que, para muitas, virá tarde demais?
O exemplo, chocante, é só mais um igual ao que se vai passando por este país fora. Milhares de profissionais estão a ser empurrados para fora do SNS. Trabalho precário, encerramento de serviços, baixos salários, horários desregulados, carreiras desvalorizadas, tornam cada vez mais atractiva para muitos a saída do serviço público para as unidades de saúde privadas que se multiplicam por todo o país, acenando com salários mais chorudos e condições mais vantajosas. A somar a esta verdadeira sangria, está a chegar à idade da reforma uma geração de profissionais, nomeadamente médicos, jovens formados e recém-formados no 25 de Abril, entusiastas e construtores de um SNS que agora vêem destruir pelas políticas de direita.
Décadas de uma política obtusa no que respeita ao acesso ao ensino superior e às carreiras na Administração Pública – na área da saúde e não só – revelam agora as suas mais graves consequências. Se não forem tomadas medidas decisivas e urgentes, como o PCP tem proposto, muitos serviços enfrentarão brevemente situações de ruptura. São já públicos vários casos de serviços de saúde que encaminham os seus utentes, ou que simplesmente encerram, porque não conseguem funcionar durante o período de férias dos trabalhadores, expondo ao ridículo o ponto a que se chegou em termos de falta de profissionais.
Da próxima vez que os ideólogos do «menos Estado, melhor Estado» falarem do «excesso de funcionários públicos», é favor lembrar casos como este. E lutar muito!


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