Pós-modernos

Anabela Fino
O debate sobre o estado da Nação foi o que seria de se esperar: o Governo, capitaneado por Sócrates, gabou(-se) da orientação política seguida como se esta não tivesse nada a ver com o estado a que isto chegou, descartou «para os outros» as responsabilidades do descalabro que não pôde esconder, e enfatizou a bondade das medidas com que – diz – acode aos que já não têm cinto, quanto mais capacidade para lhe acrescentar furos. Confrontado com factos concretos que atestam o aumento das desigualdades, a escalada da inflação, a estagnação da economia, o crescente endividamento das famílias, a galopada do desemprego, o obsceno acumular de riqueza num punhado de gente e o alargamento brutal da pobreza, Sócrates fez o que melhor sabe fazer: assobiou para o lado, jogou para canto e aos costumes disse nada.
A encenação, de tanto repetida, seria enfadonha se não fosse perigosa, quer pelo que representa enquanto estratégia de repetir à exaustão a demagogia oficial, quer pelo que acoberta quanto às intenções de futuro. Ora foi justamente numa perspectiva de futuro – leia-se, com os olhos postos no ano eleitoral que se avizinha – que Sócrates e o seu Governo assestaram baterias, tirando da cartola o discurso de «esquerda» que vêm ensaiando de há uns tempos a esta parte. A rábula seria mais tarde repetida, à laia de entrada para aguçar o apetite, no lauto jantar com que os deputados do PS se despediram das lides parlamentares e uns dos outros antes de rumar a férias.
Disse Sócrates que até às legislativas de 2009 «o combate fundamental será com a direita», com quem o PS tem, pelos vistos, «uma diferença de valores e de mundivisão», que não é propriamente o mesmo, acrescentamos nós, do que ter profundas diferença políticas. A fazer fé no que a comunicação social trouxe a público, a momentosa diferença em boa hora encontrada foi fornecida pela ideia defendida por Manuela Ferreira Leite de que «o casamento tem por objectivo a procriação». Afirmação assaz semelhante, diga-se a propósito, a essa outra que em tempos que já lá vão forneceu a Natália Correia, deputada do PSD, o leit motiv para o poema com que em plena Assembleia arrumou de vez com João Morgado, parlamentar do CDS e pai de um só rebento, que teve a triste ideia de defender, para contrariar a liberalização do aborto, «que o acto sexual é para ter filhos». Mas adiante. Se entre o CDS e o PSD as diferenças não são grandes, entre o PS e o PSD parecem ficar-se pelo facto de, segundo Sócrates, ser «impossível uma pessoa do PS dizer isso, porque é uma frase pré-moderna e até pré-concílio do Vaticano II». Donde se conclui que «ser moderno e de esquerda» é uma e a mesma coisa, motivo bastante para ressuscitar o sempre conveniente tema da bipolarização, que como toda a gente sabe é meio caminho andado para apelar ao voto útil. E aqui é que bate o ponto, embora Sócrates se tenha coibido de o afirmar: para contrariar o inequívoco crescimento do PCP, nada melhor do que tirar o socialismo da gaveta onde Mário Soares o arrumou vai para mais de trinta anos. Só para caçar votos, claro, que isso do socialismo até faz brotoeja aos pós-modernos de «esquerda».


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