A serena coragem

José Casanova (embro da Comissão Política do PCP)
São difíceis e perigosos, os tempos que vivemos – para a imensa maioria das pessoas e, de forma especial, para os que não aceitam como uma inevitabilidade o sistema dominante e o combatem contrapondo-lhe uma alternativa de justiça social, de liberdade, de fraternidade, de paz e de respeito pela soberania dos povos.

«Terrorista» é todo o que combater os interesses planetários dos EUA

Os que assim agem são referenciados, catalogados, incluídos na lista negra dos alvos preferenciais e vêem-se todos os dias confrontados com fortes pressões, ameaças e represálias, numa cadência que assume proporções agravadas nas situações de mais frontal e directo confronto.
Temos visto como, a pretexto dos recentes acontecimentos da Colômbia, a sanha persecutória se acendeu e, na maior parte dos média dominantes, a intolerância roçou a ténue linha que a separa da repressão – deixando a ideia de que ela será transposta se e quando necessário for...
Este cenário de intolerância assinala um daqueles momentos em que, como refere o personagem de «A Peste», dizer que dois mais dois são quatro comporta perigosas consequências para quem o diz – e em que, não obstante, a questão que se coloca a quem faz a afirmação, não está tanto na ponderação dessas consequências mas essencialmente em saber se, sim ou não, a soma está certa, e estando, correr o risco de a assumir com dignidade.
A montante desta realidade sombria e na sua origem, está o momento em que o Governo dos EUA – país que é o maior centro de terrorismo do mundo - decidiu e mandou publicar que as FARC eram uma «organização terrorista». Ora, como estamos fartos de ouvir dizer, os presidentes dos EUA – todos, sejam democráticos ou republicanos – são possuidores de um mandato divino que os torna praticamente infalíveis e que, a partir da ideia básica de que os interesses dos EUA são os interesses do mundo, lhes permite fazer o que muito bem entendem, onde, quando e contra quem muito bem entendam.
Assim, peritos em matéria de definição de «organizações terroristas», graças a uma vasta experiência e a um muito pragmático critério - «terrorista» é todo o que não acatar e (ou) combater directa ou indirectamente os interesses planetários dos EUA – a inclusão das FARC na lista de «organizações terroristas» foi simples e natural: tanto quanto o foi, há umas décadas atrás, a inclusão do ANC e de Nelson Mandela nessa mesma lista de «terroristas»...
Depois, cumprindo a tarefa que lhes está destinada, os jornais, rádios e televisões do Planeta, na sua quase totalidade, difundiram massivamente a decisão; a União Europeia corroborou-a e os seus governantes passaram a integrá-la nos seus discursos políticos - e a imagem da «organização terrorista» ganhou estatuto de verdade absoluta e universal, pelo que contestá-la passou a ser visto como coisa intolerável, susceptível mesmo de ser tomada como crime a exigir punição severa... E, como desde então temos verificado, só recorrendo a uma grande coragem política, respondendo à ameaça com a expressão frontal da livre opinião, é possível contestar ou rejeitar esse decreto.
E a realidade confirmou que, como a vida está farta de nos mostrar, nestas situações há os que enfrentam a ameaça com a dignidade e a coragem necessárias e há os que cedem à ameaça e, sem vergonha mas de forma envergonhada, têm como preocupação maior não irritar os que ameaçam…

Separar as águas

Nos últimos dias, vimos, ouvimos e lemos como os média dominantes têm vindo a cumprir o seu papel policial, disparando insinuações ou acusações carregadas de ameaças sobre todos os que não confessem o seu alinhamento canino com o decreto imperial; vimos, ouvimos e lemos o que se passou no Parlamento, no decorrer do debate em torno dos dois votos que ali foram apresentados – um, de glorificação do regime de Uribe, apresentado pelo PS; outro, condenando esse regime narco-fascista, apresentado pelo PCP – e as leituras que disso fizeram os média dominantes, propriedade do grande capital.
E, a propósito: vimos, ouvimos e lemos como o BE apoiou o primeiro voto e se absteve no segundo – atitude que remete para a questão suscitada pelo personagem de Camus: quando a coragem foge e o medo avança, a soma de dois mais dois é a que os que provocam o medo disserem que é…
Tudo isto a confirmar que é em momentos como este que a separação das águas ocorre natural e implacável e põe a nu a dignidade ou a falta dela na postura dos homens - porque são momentos como este que evidenciam inequivocamente a diferença entre a serena coragem de dizer a verdade, sejam quais forem as consequências, e a apavorada cobardia de aceitar a mentira, temendo as consequências de a rejeitar.


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