O declínio

Henrique Custódio
Uma reportagem de Felícia Cabrita no Sol (Revista Tabu) expõe o nebuloso papel de Xanana Gusmão em Timor-Leste, desde a independência em 2001.
Parafraseando Marx, tudo começa com a economia. Felícia Cabrita recorda: «Depois de reconhecer devidamente a soberania indonésia, a Austrália conseguira passar a explorar 85% do mar dos vizinhos [timorenses]. Mas uma das medidas de Alkatiri [como primeiro-ministro] é chamar o seu a seu dono e, na legislação sobre recursos petrolíferos, baixa a percentagem para 50%». A partir daí «Xanana [então Presidente da República], nos comícios à nação (invariavelmente contra o Governo), acicata grupos de jovens que espalham o terror nas ruas de Dili».
Por essa altura, a 20 de Maio de 2002, o ministro de Durão Barroso, José Luís Arnaut, visita oficialmente Timor-Leste. «Enquanto Arnaut e Alkatiri conversam, Rui Lopes lidera os golpistas nas ruas» (Rui Lopes é um antigo operacional da UDT dos Carrascalões, na década de 90 serve estes e Xanana). O drama prossegue: «Em 2002, quando Xanana lhe telefona, Rui Lopes não hesita: “Ele queria acabar com o Governo de Alkatiri, até me ofereceu trabalho”. Rui encabeça a multidão que invade o Palácio das Cinzas, sede do Governo». José Luís Arnaut é evacuado pelo GOE da PSP. «Entretanto, a casa de Alkatiri é queimada até à última parede». «Aquilo não foi a brincar, tratava-se mesmo de um golpe para derrubar Alkatiri», garante o ministro Arnaut.
Prosseguem as conspirações contra o Governo da Fretilin liderado por Alkatiri. Em 1995, «durante 19 dias, uma manifestação dirigida pelo topo do clero provoca distúrbios e faz parar o país. Xanana aproveita todas as oportunidades». Mas o golpismo fracassa de novo. Em Janeiro de 2006, «depois de um exercício minucioso manobrado por Xanana» surge o «golpe dos peticionários», jovens recrutas que justificam a sua insurreição invocando «discriminação por parte dos veteranos». Segue-se um crescendo de provocações, «entram em cena outros militares que lideram grupos diferentes», onde se destacam Alfredo Reinado e Rai Lós. O primeiro diz a Rui Lopes que «ligou ao Xanana, que lhe disse: “É pá, põe fogo aí em baixo (em Fatuai) que eu ponho fogo aqui em cima (Dili)». O segundo (que dois anos depois lideraria o atentado contra Ramos-Horta) é apanhado com «um salvo-conduto assinado por Xanana». Disto resultam vários mortos do exército e uma declaração do primeiro-ministro australiano ameaçando intervir, enquanto Xanana escreve a Alfredo Reinado que «já combinei com as forças australianas e vocês têm de ir estacionar em Aileu».
Este golpe de 2006 afasta Alkatiri e a Fretilin do poder e produz eleições antecipadas, onde Xanana perde, o que não o inibe de nova golpaça: pôs-se à frente de uma coligação que afastou de poder o partido vencedor, a Fretilin. Segue-se o nebuloso atentado a Ramos-Horta após este se mostrar favorável à proposta da Fretilin em se convocar eleições antecipadas (só sobreviveria graças aos portugueses da GNR), o estranho assassinato de Reinado e o atabalhoado «ataque» a Xanana, que só atinge pneus e tectos de viatura, com os australianos a protelar indefinidamente as conclusões das investigações.
Felícia Cabrita conclui, peremptória: «Ramos-Horta salvou-se e se neste momento o povo timorense fosse às urnas a sua vitória era certa. A coligação de governo desmorona-se a cada dia que passa e Xanana entrou em declínio».
Já tinha entrado, quando se rendeu aos indonésios, lembram-se? Só que agora nota-se mais, ao servir novos senhores...


Mais artigos de: Opinião

É na política de direita que está a raíz da instabilidade

É generalizada a consciência de que a situação económica e social se agrava e que as políticas que têm vindo a ser seguidas são parte, e grande, do problema. Alargam-se as desigualdades e as assimetrias, os indicadores de pobreza alargam-se e crescem.

Morrer no Afeganistão

No Afeganistão sucedem-se os ataques aéreos e terrestres das tropas de ocupação contra localidades e alvos civis e militares. Nos últimos 12 meses cada vez mais mulheres e crianças têm sido assassinadas pelos bombardeamentos da aviação militar estrangeira. Mas as acções da resistência são cada vez mais espectaculares e...

O monumental embuste

À porta de onde tinha acabado de assinar com o Governo, devidamente abençoados pela UGT, a proposta da concertação social sobre as alterações ao Código do Trabalho, Francisco Van Zeller, da Confederação da Indústria Portuguesa, declarou sorridente às câmaras das televisões: «encontraram-se diversos pontos de equilíbrio...

O felino era um cão

Os tempos mudam. Isto para dizer que há sempre «novidades», mesmo que, vistas mais de perto, elas nos aparecerem apenas embrulhadas em papel mais vistoso. Se há muitos anos, por exemplo, a política se compadecia com as férias de Verão, hoje, a luta contra esta política de direita entra de rompante pelo Verão dentro, seja...

É de pé que os vencemos!

A Cerâmica Torreense concluiu o processo disciplinar contra Pedro Jorge condenando-o pela sua intervenção no programa «Prós e Contras». Se a decisão é grave, as 16 páginas do relatório disciplinar final fedem a ranço, são a ilustração do neofascismo que o patronato quer impor para conter a inevitável resistência dos...