Ai que alegria...

Anabela Fino
Ai que alegria, ai que alegria, voltou a esquerda unida – diz quem sabe que foi o grito do ipiranga ouvido uma noite destas ali para as bandas de S. Bento, em perfeita sintonia com a vernissage a decorrer num bairro alto da cidade, onde por artes pouco mágicas mas muito mediáticas (e mediatizadas) convergiram proeminentes figuras que já foram de qualquer coisa e outras ainda que aspiram vir a ser de alguma coisa reservada no futuro.
Parece ser uma característica da esquerda alegre, esta de atrair os iludidos do sistema, que fazem voz grossa quando o caldo já está mais do que entornado, mas levantando o pezinho para não sujar o sapato de pelica ou a meia de seda, e sem nunca arredarem os traseiros – esquálidos ou rotundos que sejam – das cadeiras do poder, onde alternam silêncios e votos comprometidos com uma ou outra digestão mais difícil.
É claro que seria manifestamente injusto não reconhecer que eventos destes têm a capacidade de atrair também os desiludidos da política, seja porque nunca meteram a mão na massa da luta de classes, seja porque ainda acreditam que para transformar o mundo basta ir periodicamente a votos.
Seja como for, o facto é que a festiva esquerda, com um assinalável sentido de oportunidade, prestou-se a seguir os sábios conselhos dos pais da pátria que nos últimos dias vieram a terreiro chamar a atenção para que assim não pode ser, que o povo está zangado e que o espectro do comunismo – do PCP propriamente dito – paira no horizonte, pelo que o melhor é dar um ar de esquerda à coisa antes que a vaca tussa, pois como bem se sabe desde há muito é preciso que alguma coisa mude para que tudo fique na mesma. Tipo soltar o pipo à panela de pressão antes que a coisa expluda.
Muito naturalmente, S. Bento agradece e promete retribuir. Lá mais para 2009, ano de eleições e de muitos prognósticos para depois do jogo, que é a maneira mais fácil de acertar. Nos entretantos, a esquerda alegre fala, fala, fala, fala... e de tão cansada de falar fica sem ânimo para muito mais. É que isto da esquerda cansa, minha gente.


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