Aí está...
«Permito-me sugerir ao PS – e aos seus responsáveis – que têm de fazer uma reflexão profunda sobre a pobreza, as desigualdades sociais, o descontentamento das classes médias e as questões prioritárias, como: a saúde, a educação, o desemprego, a previdência social, o trabalho».
Isto escreveu anteontem Mário Soares no Diário de Notícias, o que animou os noticiários televisivos desse dia e até deu lugar a um debate na SIC-Notícias, tudo reverenciando as palavras do fundador do PS numa genuflexão que a actual direcção do partido acompanhou devidamente através do inenarrável Vitalino Canas, a porta-vozear cordialmente para o fundador que «o PS já estava atento» a todos esses problemas.
Nada disto é novidade e Mário Soares, com a previsibilidade de um pêndulo, sobe de novo ao palco com «discursos de esquerda» para diluir o desprestígio que a actual política de direita está a desencadear no País contra o PS. Ele e Manuel Alegre especializaram-se nesta técnica, regularmente experimentada nas maiorias de Guterres e agora na de Sócrates, sempre a criar a ilusão de que há «uma esquerda no interior do PS» a bater o pé... para que tudo siga na mesma.
Desta vez, a ocasião ensejou-se com um relatório demolidor do Eurostat a identificar Portugal como o país da União onde há mais pobreza e desigualdades sociais e apontando números brutais – pobreza a afectar 52% das famílias e 950 mil portugueses a viver com menos de 10 euros/dia – tudo isto a agravar-se desde que Sócrates tomou posse há três anos (e ao contrário do que o seu Governo afirmou). Perante tão contundente denúncia, nada melhor que Soares «sugerir ao PS» uma «reflexão profunda», assim em jeito de abanão à «carruagem de esquerda» do PS para dar a ilusão de que esta se pôs em marcha.
Só que nesta nova incursão Mário Soares esquece, mais uma vez – e ninguém lho lembra, evidentemente –, que foi ele próprio a abrir o caminho para Portugal se tornar «o país da União Europeia socialmente mais desigual e injusto», chegando a, publicamente, «meter o socialismo na gaveta» para justificar a ofensiva generalizada que liderou contra as conquistas de Abril para restaurar o poder dos capitalistas, que agora tanto parece incomodá-lo. Também esquece que foi ele o artífice da entrada de Portugal na CEE e um entusiástico apoiante do desmantelamento do aparelho produtivo português imposto pela UE, embora de momento louve as «políticas sociais» que «estimularam o crescimento» dos países nórdicos.
Todavia, Soares não quer equívocos. Após declarar «as dificuldades» apontadas como «vindas de fora» e com «causas externas» e frisar que Sócrates e o seu Governo «fizeram tudo bem» para «reduzir o défice e modernizar a sociedade», adverte acerca do que realmente o preocupa: «Há que avançar rapidamente na resolução destas questões» pois «se o não fizerem, o PCP e o Bloco de Esquerda continuarão a subir nas sondagens. É o voto de protesto, que tanta falta fará ao PS em tempo de eleições».
Ora aí está. O que realmente preocupa Soares não é a pobreza dos portugueses – é a riqueza dos votos que garante o poder – para o PS, evidentemente. Todos muito de esquerda - como de costume.
Isto escreveu anteontem Mário Soares no Diário de Notícias, o que animou os noticiários televisivos desse dia e até deu lugar a um debate na SIC-Notícias, tudo reverenciando as palavras do fundador do PS numa genuflexão que a actual direcção do partido acompanhou devidamente através do inenarrável Vitalino Canas, a porta-vozear cordialmente para o fundador que «o PS já estava atento» a todos esses problemas.
Nada disto é novidade e Mário Soares, com a previsibilidade de um pêndulo, sobe de novo ao palco com «discursos de esquerda» para diluir o desprestígio que a actual política de direita está a desencadear no País contra o PS. Ele e Manuel Alegre especializaram-se nesta técnica, regularmente experimentada nas maiorias de Guterres e agora na de Sócrates, sempre a criar a ilusão de que há «uma esquerda no interior do PS» a bater o pé... para que tudo siga na mesma.
Desta vez, a ocasião ensejou-se com um relatório demolidor do Eurostat a identificar Portugal como o país da União onde há mais pobreza e desigualdades sociais e apontando números brutais – pobreza a afectar 52% das famílias e 950 mil portugueses a viver com menos de 10 euros/dia – tudo isto a agravar-se desde que Sócrates tomou posse há três anos (e ao contrário do que o seu Governo afirmou). Perante tão contundente denúncia, nada melhor que Soares «sugerir ao PS» uma «reflexão profunda», assim em jeito de abanão à «carruagem de esquerda» do PS para dar a ilusão de que esta se pôs em marcha.
Só que nesta nova incursão Mário Soares esquece, mais uma vez – e ninguém lho lembra, evidentemente –, que foi ele próprio a abrir o caminho para Portugal se tornar «o país da União Europeia socialmente mais desigual e injusto», chegando a, publicamente, «meter o socialismo na gaveta» para justificar a ofensiva generalizada que liderou contra as conquistas de Abril para restaurar o poder dos capitalistas, que agora tanto parece incomodá-lo. Também esquece que foi ele o artífice da entrada de Portugal na CEE e um entusiástico apoiante do desmantelamento do aparelho produtivo português imposto pela UE, embora de momento louve as «políticas sociais» que «estimularam o crescimento» dos países nórdicos.
Todavia, Soares não quer equívocos. Após declarar «as dificuldades» apontadas como «vindas de fora» e com «causas externas» e frisar que Sócrates e o seu Governo «fizeram tudo bem» para «reduzir o défice e modernizar a sociedade», adverte acerca do que realmente o preocupa: «Há que avançar rapidamente na resolução destas questões» pois «se o não fizerem, o PCP e o Bloco de Esquerda continuarão a subir nas sondagens. É o voto de protesto, que tanta falta fará ao PS em tempo de eleições».
Ora aí está. O que realmente preocupa Soares não é a pobreza dos portugueses – é a riqueza dos votos que garante o poder – para o PS, evidentemente. Todos muito de esquerda - como de costume.