Relatório à medida de Uribe
A Interpol apresentou o seu relatório sobre os portáteis alegadamente apreendidos pelo duo Uribe/Bush aquando do bombardeamento de um acampamento das FARC no Equador. Para além de muitas contradições, não traz nada de novo na medida em que Uribe e os média internacionais já tinham adiantado tudo o que era preciso para demonizar o governo da Venezuela e de o acusar de conivência com a guerrilha. Ao longo desta nota veremos algumas delas, mas antes dois pequenos parênteses.
O primeiro sobre alguns figurões da Interpol. Está presidida por um tal Arturo Herrera Verdugo – há apelidos que marcam – que foi director-geral da Polícia de Investigações do Chile durante a ditadura de Pinochet. O seu nome aparece ligado ao massacre de Calama (1). A sua presidência é interina e foi designado para substituir Jackie Selebi, de Joanesburgo, destituído por estar acusado de corrupção e de ligações com Glenn Agliotti, chefe mafioso do seu país. Ronald Kenneth Noble, que apresentou o relatório, é secretário-geral da Interpol, ex-membro do Departamento do Tesouro dos EUA e o primeiro não europeu a ocupar a posição.
O segundo para recordar a recente manipulação dos média. Lemos na imprensa que Chávez se encontrou com Zapatero na Cimeira de Lima e que o espanhol «se manteve sentado» enquanto o venezuelano o saudava. A referência a que Zapatero «se manteve sentado» não é inocente. Que a informação apareça numa página onde se vê que Zapatero estava de pé (2) não impede a mentira. Que o jornal espanhol El País mostre, na mesma notícia, um vídeo desse encontro onde se vê que ambos estão de pé não pára a manipulação.
Estabelecido o nível moral de alguns dos responsáveis da Interpol e a «isenção» dos média, debrucemo-nos sobre o tal relatório ... e o que eles não noticiaram.
Os ficheiros foram modificados, sim
A Interpol afirma que os ficheiros «não foram modificados, apagados ou acrescentados», mas no relatório (3) (página 31) escreve que o «acesso aos dados contidos nas provas mencionadas não se ajustou aos princípios reconhecidos internacionalmente para o tratamento de provas electrónicas por parte dos organismos encarregues da aplicação da lei». Noutro momento afirma que «o acesso directo pode complicar em grande medida o processo de validação das provas para a sua apresentação nos tribunais».
Datas estranhas nos ficheiros
Os portáteis foram alegadamente apreendidos a 1 de Março. Contudo, o relatório (pág. 32) informa que depois nessa data e dias posteriores foram criados 273 ficheiros de sistema, abertos outros 373, modificados 786 e suprimidos 488. Isto na prova instrumental 26. Coisas parecidas aconteceram às provas 27, 28 e 30 a 34.
Ficheiros do futuro!
Não deixa de surpreender que os portáteis tivessem milhares de ficheiros criados em... 2009! Entre 20 de Abril e 27 de Agosto foram criados 2110. Mas outros 1434 foram modificados entre 5 de Abril e 16 de Outubro de 2010! A polícia internacional conclui que isso foi antes de 1 de Março de 2008 com uma configuração de data e hora de sistema incorrecta! Ou seja, que mudando a hora do computador podemos ter as datas que quisermos... É a própria Interpol quem informa que entre 1 e 3 de Março os documentos foram acedidos 48 055 vezes. Por quem? Para quê? Curiosamente, nenhumas destas situações foram noticiadas pelos média. Por quê?
Há muito do relatório que deveria ser explicado pela Interpol mas não será. Entretanto, recordamos que a OEA e um grupo de intelectuais e académicos dos EUA já se tinham antecipado a estas «revelações» minimizando a sua relevância. Larry Birns, director do Conselho para Assuntos Hemisféricos afirmou que «a autenticação dos computadores portáteis não implica a validação das interpretações colombianas do seu conteúdo e se deveria tomar nota tanto da análise independente dos documentos como da declaração do secretário-geral da OEA». Sobre a manipulação mediática afirmou: «Os média têm actualmente uma orientação profundamente anti-Chávez» e citou os casos de The Washington Post e do New York Times «quando fazem circular declarações ideológicas que parecem notas de imprensa da Casa Branca». Sobre os colombianos recordou que «têm tido uma longa história de jornalismo sensacionalista e de distorções».
A Venezuela é hoje o alvo do imperialismo e foi com falsificações como estas que se justificou a guerra do Iraque.
__________
(1) Acção repressiva posterior ao golpe de 1973, que terminou com o lançamento ao mar dos cadáveres de 26 fuzilados. Ver http://centroschilenos.blogia.com/temas/pedro-a.-matta.php. A informação é de Dezembro de 2007, muito antes do relatório.
(2)www.elpais.com/videos/espana/Saludo/Chavez/Zapatero/Peru/elpvidnac/20080516elpepunac_11/Ves/
(3) www.interpol.int/Public/ICPO/PressReleases/PR2008/pdfPR200817/Default.asp
O primeiro sobre alguns figurões da Interpol. Está presidida por um tal Arturo Herrera Verdugo – há apelidos que marcam – que foi director-geral da Polícia de Investigações do Chile durante a ditadura de Pinochet. O seu nome aparece ligado ao massacre de Calama (1). A sua presidência é interina e foi designado para substituir Jackie Selebi, de Joanesburgo, destituído por estar acusado de corrupção e de ligações com Glenn Agliotti, chefe mafioso do seu país. Ronald Kenneth Noble, que apresentou o relatório, é secretário-geral da Interpol, ex-membro do Departamento do Tesouro dos EUA e o primeiro não europeu a ocupar a posição.
O segundo para recordar a recente manipulação dos média. Lemos na imprensa que Chávez se encontrou com Zapatero na Cimeira de Lima e que o espanhol «se manteve sentado» enquanto o venezuelano o saudava. A referência a que Zapatero «se manteve sentado» não é inocente. Que a informação apareça numa página onde se vê que Zapatero estava de pé (2) não impede a mentira. Que o jornal espanhol El País mostre, na mesma notícia, um vídeo desse encontro onde se vê que ambos estão de pé não pára a manipulação.
Estabelecido o nível moral de alguns dos responsáveis da Interpol e a «isenção» dos média, debrucemo-nos sobre o tal relatório ... e o que eles não noticiaram.
Os ficheiros foram modificados, sim
A Interpol afirma que os ficheiros «não foram modificados, apagados ou acrescentados», mas no relatório (3) (página 31) escreve que o «acesso aos dados contidos nas provas mencionadas não se ajustou aos princípios reconhecidos internacionalmente para o tratamento de provas electrónicas por parte dos organismos encarregues da aplicação da lei». Noutro momento afirma que «o acesso directo pode complicar em grande medida o processo de validação das provas para a sua apresentação nos tribunais».
Datas estranhas nos ficheiros
Os portáteis foram alegadamente apreendidos a 1 de Março. Contudo, o relatório (pág. 32) informa que depois nessa data e dias posteriores foram criados 273 ficheiros de sistema, abertos outros 373, modificados 786 e suprimidos 488. Isto na prova instrumental 26. Coisas parecidas aconteceram às provas 27, 28 e 30 a 34.
Ficheiros do futuro!
Não deixa de surpreender que os portáteis tivessem milhares de ficheiros criados em... 2009! Entre 20 de Abril e 27 de Agosto foram criados 2110. Mas outros 1434 foram modificados entre 5 de Abril e 16 de Outubro de 2010! A polícia internacional conclui que isso foi antes de 1 de Março de 2008 com uma configuração de data e hora de sistema incorrecta! Ou seja, que mudando a hora do computador podemos ter as datas que quisermos... É a própria Interpol quem informa que entre 1 e 3 de Março os documentos foram acedidos 48 055 vezes. Por quem? Para quê? Curiosamente, nenhumas destas situações foram noticiadas pelos média. Por quê?
Há muito do relatório que deveria ser explicado pela Interpol mas não será. Entretanto, recordamos que a OEA e um grupo de intelectuais e académicos dos EUA já se tinham antecipado a estas «revelações» minimizando a sua relevância. Larry Birns, director do Conselho para Assuntos Hemisféricos afirmou que «a autenticação dos computadores portáteis não implica a validação das interpretações colombianas do seu conteúdo e se deveria tomar nota tanto da análise independente dos documentos como da declaração do secretário-geral da OEA». Sobre a manipulação mediática afirmou: «Os média têm actualmente uma orientação profundamente anti-Chávez» e citou os casos de The Washington Post e do New York Times «quando fazem circular declarações ideológicas que parecem notas de imprensa da Casa Branca». Sobre os colombianos recordou que «têm tido uma longa história de jornalismo sensacionalista e de distorções».
A Venezuela é hoje o alvo do imperialismo e foi com falsificações como estas que se justificou a guerra do Iraque.
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(1) Acção repressiva posterior ao golpe de 1973, que terminou com o lançamento ao mar dos cadáveres de 26 fuzilados. Ver http://centroschilenos.blogia.com/temas/pedro-a.-matta.php. A informação é de Dezembro de 2007, muito antes do relatório.
(2)www.elpais.com/videos/espana/Saludo/Chavez/Zapatero/Peru/elpvidnac/20080516elpepunac_11/Ves/
(3) www.interpol.int/Public/ICPO/PressReleases/PR2008/pdfPR200817/Default.asp