Apagões

Hugo Janeiro
No rescaldo da vaga de incêndios fazem-se as contas aos prejuízos materiais e humanos. Como já é habitual, especialistas ou comentadores avalizados pela comunicação social dominante juntam-se ao Governo tentando apagar da memória colectiva as causas e os responsáveis pela catástrofe que se abateu sobre o País.
Quanto à incomparável intervenção do PCP nesta matéria o silêncio sepulcral é a bitola de todos. Quando não é mais possível esconder que os comunistas intervêm contracorrente ao pensamento único, um qualquer pivot apresenta, em voz off, uma peça que deturpa ou omite, ou deturpa e omite, o que realmente pensam e fazem os comunistas, julgando apagar da vida de todos os dias as opiniões e a luta do PCP.
Os «líderes» da oposição rodam nas televisões, mascarram as folhas de jornal, se não há Ferro, o Louçã também serve, e se a «esquerda» anda «a banhos», venha o Monteiro que até tem um novo partido de ideias velhas.
Sempre badalado entre os «líderes» da oposição alternante, Mário Soares tentou apanhar desprevenidos os mais incautos. A propósito da política de alianças e outras matérias nas quais o Partido Socialista tem navegado à direita, discorreu longamente, chegando a um dos mais despudorados apagões da semana. Como se a prática concreta, passada e presente do PS fosse passível de eliminar a golpes de borracha, Soares incitou a direcção a virar à esquerda, a coligar-se à esquerda, a assumir-se como poder, a pedir a maioria absoluta. Sem qualificar o conteúdo dessa viragem ou o que ela possa trazer de novo ao povo e ao País, deixou espaço ao contorcionismo e, concluiu, que «quem tem medo compra um cão, não faz política». Lapidar!
Medo foi o que sentiu durante décadas o povo timorense às mãos da ditadura indonésia, cuja política de terror cedo se aliou aos que, saudosos do fascismo, resolveram semear a invasão do território. Num «apagão» generalizado o Governo português concedeu honras militares à cerimónia fúnebre de Maggiolo Gouveia. Como tal não bastou para satisfazer os recalcamentos mais reaccionários, Paulo Portas surgiu penitente em frente à urna e cuidou de apagar os «pecados» do coronel.
Mas o fenómeno não se ficou por cá, galgou fronteiras. Depois de ter feito estragos nas lusas paragens, a «cegonha», essa ardilosa terrorista da alta tensão que nunca ninguém viu mas todos afirmam ter culpas no cartório, atravessou o Atlântico apagando a luz ao império. Por instantes esperei por declarações da bicha, com um burka a tapar-lhe o bico e uma imagem de Ben Laden tatuada na asa, assumindo pertencer a um célula terrorista mundial, sediada na Síria, Irão, Coreia do Norte ou Cuba, contra os interesses norte-americanos. A este devaneio respondeu a administração americana, deixando claro que «os EUA têm uma rede eléctrica do terceiro mundo».
O sobressalto da declaração aguçou-me a memória e fez-me pensar nos países do dito terceiro mundo, onde o Tio Sam tem uma «rede eléctrica» que tortura e «apaga» os «subversivos» com choques de elevada voltagem.
Numa demonstração de que a lição está bem estudada, o ministro das Infra-estruturas israelita afirmou que o quartel-general da Autoridade Nacional Palestiniana «deve ser destruído com todos os que lá se encontrem», isto é, apagado ao ritmo de uma faísca!


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