Imperialismo genético

Leandro Martins
Se calhar, se não corresse ainda Agosto, a coisa não tinha sido tão chocante. Mas em Agosto volta à memória de quase toda a gente o gigantesco massacre de Hiroshima e Nagasaki, as bombas atómicas lançadas pelos Estados Unidos sobre centenas de milhares de seres humanos indefesos e certamente inocentes, um fatídico passo franqueado pelo império do sol poente não já para arrumar uma guerra mas para iniciar outra que se prolonga até aos nossos dias. É Agosto e o holocausto final da Segunda Guerra Mundial vem-nos à memória. E para os japoneses, por maioria de razão, é mês que lhes aviva a lembrança do horror. Por isso certamente a estupefacção com que vimos a correr, no rodapé de uma televisão cá do nosso país, a notícia de que o Japão - leia-se o Estado japonês - «insistiu» com os Estados Unidos para que estes usassem a ameaça da bomba atómica sobre a Coreia do Norte!
Não são apenas as notícias, mas também, os comentários, que nos põem os cabelos em pé. O seráfico Sarsfield Cabral, economista travestido de jornalista, discorria há dias no DN, socorrendo-se da opinião de um outro, sobre as questões do império. Recorda SC que Luís Delgado, dias antes, «aconselhava» os Estados Unidos a deixarem de lado o papel de reconstrutores, «para o qual não estão fadados». Até aqui, de acordo, os EUA têm pergaminhos no campo de destruição de nações. Socorrendo-se, mais adiante da opinião do The Economist, SC encontra maneira de nos revelar a contradição seguinte: «Os americanos não seriam verdadeiros imperialistas porque são democratas e a democracia é incompatível com o império»...
E depois adianta: «Povo colonizado tornado independente, os americanos são geneticamente anticoloniais»!
Isto da genética acaba invadindo tudo e não respeitando nada, nem sequer a inteligência. Como é possível falar de um «povo» colonialista? Ou racista? Ou, mesmo, nazi? Os povos são, sempre, o contrário disso, mesmo quando votam contra os seus interesses e apoiam as aventuras políticas e os massacres. Um punhado de detentores do poder capitalista induz as massas no erro, apoiados em fazedores de opinião pagos para isso. Mas não venha Sarsfield meter o gene onde não é chamado.
A confusão fica instalada, apesar de, no final do artigo, Sarsfield reclamar: «Chega de indefinição»! Quer o homem que a superpotência assuma as suas «responsabilidades mundiais». Para o que não basta a «superioridade militar para moldarem o mundo à sua maneira». E, se insistirem em desprezar as instituições internacionais, então, «ao menos sejam imperiais, mas a sério».
Haverá um gene da patetice?


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