À rua!

Henrique Custódio
No passado sábado, o noticiário da TSF das 13 horas anunciava, com aparente objectividade, que se ia realizar em Lisboa «a primeira manifestação promovida exclusivamente pelo PCP desde o 25 de Abril», informava que a concentração se fazia no Príncipe Real embora falhasse na hora (apontava o começo para as 15.30, ao invés das 14.30 largamente difundidas), acrescentava que o PCP tinha o objectivo de «protestar contra a política do Governo e mostrar, com a exibição de cartões pelos manifestantes, que possuía muito mais que os cinco mil militantes» recentemente pretendidos pela «lei dos partidos» do PS/PSD como uma espécie de «prova de vida» e até anunciava que tudo desembocava em comício, no Rossio.
Posto isto, o locutor (ou, pelo menos, o «jornalista» que redigiu a notícia) não resistiu e disse uma coisa extraordinária: declarou - tendo forçosamente como «fonte de informação» a sua preclara cabecinha - que «o PCP escolheu um percurso sinuoso para disfarçar a pouca afluência de manifestantes».
A criatura nem se lembrou que haveria a concentração-comício do Rossio para tirar a limpo a questão da afluência, ignorou que nem só de amplidões de percurso se medem as manifestações, porque o tempo e o espaço também se usam, desprezou os objectivos confessos da trajectória, que pretendia incluir o Tribunal Constitucional (Rua do Século) e o Largo do Carmo, não reparou que estava a «noticiar» uma coisa que ainda não tinha acontecido e nem sequer cuidou de resguardar as aparências de objectividade, introduzindo o advérbio da praxe que o distanciasse da afirmação (o PCP «aparentemente» escolheu, o PCP «provavelmente» escolheu, etc.).
Provavelmente – dizemos nós agora – alguém lá na TSF irá puxar as orelhas a estes papistas: é que o anticomunismo lorpa perde eficácia e, ainda por cima, desprestigia quem reivindica ter «revolucionado a rádio» em Portugal...
E bastava terem mandado alguém ao Rossio, para concluírem o que todos os jornalistas por lá viram e reconheceram: que a manifestação do PCP ali concentrada no passado sábado foi a maior verificada desde o 25 de Abril, facto ao abrigo de retóricas e objectivado na ocupação massiva de toda a praça por um mar de gente que a polícia, sempre avarenta nestes cálculos, estimou em 45 mil pessoas e a generalidade dos jornais reconheceu ser de, pelo menos, 50 mil.
Se o trajecto sinuoso escolhido teve alguma consequência foi a de mostrar, à evidência, que a enorme multidão não arredava pé quando chegava à Praça – o que também constituiu novidade -, crescendo e compactando-se ininterruptamente durante cerca de três horas entre o aparecimento da cabeça do desfile e a abertura do comício, cujo final coincidiu com a chegada dos últimos manifestantes.
Mas quem acompanhou o trajecto pôde verificar que a «sinuosidade» fazia todo o sentido quando, frente ao Tribunal Constitucional, na Rua do Século, o clamor explodiu sobre um caudal ininterrupto de cartões do PCP empunhados sobre as cabeças a afirmar a identidade partidária ou quando, no mítico Largo do Carmo, reboaram os protestos contra a política de destruição dos direitos sociais de Abril prosseguida pelo Governo, tudo isto durante horas a fio até desaguar num mar de bandeiras vermelhas que, inundando toda a Praça do Rossio, incendiou o imenso protesto proclamado no comício por Jerónimo de Sousa: que «a ofensiva do Governo PS de José Sócrates não deixa intocável nenhuma das vertentes do regime democrático».
Urge defendê-lo. E a luta já saiu à rua.


Mais artigos de: Opinião

Holocausto sionista

Se dúvidas houvesse sobre a natureza do poder sionista em Israel, elas foram definitivamente desfeitas na última semana. Nas palavras e nos actos. Em quatro dias de morte e destruição, Israel matou mais de 100 palestinos na Faixa de Gaza. Um terço eram crianças (Al Jazeera, 2.3.08). No meio da orgia sanguinária, o...

Segurança Social, sustentabilidade e propaganda

O Governo do PS abandonou a postura alarmista em relação à perspectiva de desequilíbrios financeiros da Segurança Social que, em 2005, presidiu à apresentação do Relatório sobre a sua sustentabilidade financeira e na base do qual foi lançada uma gigantesca operação de propaganda.

Apelos e desabafos

Num momento em que milhares de professores por todo o país se manifestam contra a política do Governo PS para o sector educativo, o Presidente da República escolheu o fim de semana para, nas instalações do Colégio Militar, lançar um apelo à «serenidade».Gostaria o Presidente da República que os ataques à escola pública e...

O Rossio e a betesga

Neste Avante está devidamente dito tudo sobre a histórica Marcha de 1 de Março e o seu extraordinário significado como instrumento de futuro (i)mediato.Esta afirmação da força e vitalidade do PCP e dos ideais de Abril e os desenvolvimentos significativos na luta de massas contra estas políticas e este Governo – os que...

O centro do centro é centro a mais

Ao fim de três décadas de alternância no Poder entre PS e PSD (com ou sem CDS como contrapeso) com os resultados que se conhece, é no mínimo surpreendente que ainda haja quem acredite haver mais centro para explorar ou, dizendo de outra forma, que há mais no centro do que podemos imaginar. Parece no entanto ser esse o...