À rua!
No passado sábado, o noticiário da TSF das 13 horas anunciava, com aparente objectividade, que se ia realizar em Lisboa «a primeira manifestação promovida exclusivamente pelo PCP desde o 25 de Abril», informava que a concentração se fazia no Príncipe Real embora falhasse na hora (apontava o começo para as 15.30, ao invés das 14.30 largamente difundidas), acrescentava que o PCP tinha o objectivo de «protestar contra a política do Governo e mostrar, com a exibição de cartões pelos manifestantes, que possuía muito mais que os cinco mil militantes» recentemente pretendidos pela «lei dos partidos» do PS/PSD como uma espécie de «prova de vida» e até anunciava que tudo desembocava em comício, no Rossio.
Posto isto, o locutor (ou, pelo menos, o «jornalista» que redigiu a notícia) não resistiu e disse uma coisa extraordinária: declarou - tendo forçosamente como «fonte de informação» a sua preclara cabecinha - que «o PCP escolheu um percurso sinuoso para disfarçar a pouca afluência de manifestantes».
A criatura nem se lembrou que haveria a concentração-comício do Rossio para tirar a limpo a questão da afluência, ignorou que nem só de amplidões de percurso se medem as manifestações, porque o tempo e o espaço também se usam, desprezou os objectivos confessos da trajectória, que pretendia incluir o Tribunal Constitucional (Rua do Século) e o Largo do Carmo, não reparou que estava a «noticiar» uma coisa que ainda não tinha acontecido e nem sequer cuidou de resguardar as aparências de objectividade, introduzindo o advérbio da praxe que o distanciasse da afirmação (o PCP «aparentemente» escolheu, o PCP «provavelmente» escolheu, etc.).
Provavelmente – dizemos nós agora – alguém lá na TSF irá puxar as orelhas a estes papistas: é que o anticomunismo lorpa perde eficácia e, ainda por cima, desprestigia quem reivindica ter «revolucionado a rádio» em Portugal...
E bastava terem mandado alguém ao Rossio, para concluírem o que todos os jornalistas por lá viram e reconheceram: que a manifestação do PCP ali concentrada no passado sábado foi a maior verificada desde o 25 de Abril, facto ao abrigo de retóricas e objectivado na ocupação massiva de toda a praça por um mar de gente que a polícia, sempre avarenta nestes cálculos, estimou em 45 mil pessoas e a generalidade dos jornais reconheceu ser de, pelo menos, 50 mil.
Se o trajecto sinuoso escolhido teve alguma consequência foi a de mostrar, à evidência, que a enorme multidão não arredava pé quando chegava à Praça – o que também constituiu novidade -, crescendo e compactando-se ininterruptamente durante cerca de três horas entre o aparecimento da cabeça do desfile e a abertura do comício, cujo final coincidiu com a chegada dos últimos manifestantes.
Mas quem acompanhou o trajecto pôde verificar que a «sinuosidade» fazia todo o sentido quando, frente ao Tribunal Constitucional, na Rua do Século, o clamor explodiu sobre um caudal ininterrupto de cartões do PCP empunhados sobre as cabeças a afirmar a identidade partidária ou quando, no mítico Largo do Carmo, reboaram os protestos contra a política de destruição dos direitos sociais de Abril prosseguida pelo Governo, tudo isto durante horas a fio até desaguar num mar de bandeiras vermelhas que, inundando toda a Praça do Rossio, incendiou o imenso protesto proclamado no comício por Jerónimo de Sousa: que «a ofensiva do Governo PS de José Sócrates não deixa intocável nenhuma das vertentes do regime democrático».
Urge defendê-lo. E a luta já saiu à rua.
Posto isto, o locutor (ou, pelo menos, o «jornalista» que redigiu a notícia) não resistiu e disse uma coisa extraordinária: declarou - tendo forçosamente como «fonte de informação» a sua preclara cabecinha - que «o PCP escolheu um percurso sinuoso para disfarçar a pouca afluência de manifestantes».
A criatura nem se lembrou que haveria a concentração-comício do Rossio para tirar a limpo a questão da afluência, ignorou que nem só de amplidões de percurso se medem as manifestações, porque o tempo e o espaço também se usam, desprezou os objectivos confessos da trajectória, que pretendia incluir o Tribunal Constitucional (Rua do Século) e o Largo do Carmo, não reparou que estava a «noticiar» uma coisa que ainda não tinha acontecido e nem sequer cuidou de resguardar as aparências de objectividade, introduzindo o advérbio da praxe que o distanciasse da afirmação (o PCP «aparentemente» escolheu, o PCP «provavelmente» escolheu, etc.).
Provavelmente – dizemos nós agora – alguém lá na TSF irá puxar as orelhas a estes papistas: é que o anticomunismo lorpa perde eficácia e, ainda por cima, desprestigia quem reivindica ter «revolucionado a rádio» em Portugal...
E bastava terem mandado alguém ao Rossio, para concluírem o que todos os jornalistas por lá viram e reconheceram: que a manifestação do PCP ali concentrada no passado sábado foi a maior verificada desde o 25 de Abril, facto ao abrigo de retóricas e objectivado na ocupação massiva de toda a praça por um mar de gente que a polícia, sempre avarenta nestes cálculos, estimou em 45 mil pessoas e a generalidade dos jornais reconheceu ser de, pelo menos, 50 mil.
Se o trajecto sinuoso escolhido teve alguma consequência foi a de mostrar, à evidência, que a enorme multidão não arredava pé quando chegava à Praça – o que também constituiu novidade -, crescendo e compactando-se ininterruptamente durante cerca de três horas entre o aparecimento da cabeça do desfile e a abertura do comício, cujo final coincidiu com a chegada dos últimos manifestantes.
Mas quem acompanhou o trajecto pôde verificar que a «sinuosidade» fazia todo o sentido quando, frente ao Tribunal Constitucional, na Rua do Século, o clamor explodiu sobre um caudal ininterrupto de cartões do PCP empunhados sobre as cabeças a afirmar a identidade partidária ou quando, no mítico Largo do Carmo, reboaram os protestos contra a política de destruição dos direitos sociais de Abril prosseguida pelo Governo, tudo isto durante horas a fio até desaguar num mar de bandeiras vermelhas que, inundando toda a Praça do Rossio, incendiou o imenso protesto proclamado no comício por Jerónimo de Sousa: que «a ofensiva do Governo PS de José Sócrates não deixa intocável nenhuma das vertentes do regime democrático».
Urge defendê-lo. E a luta já saiu à rua.