As dúvidas

Henrique Custódio
«Do ponto de vista moral não tive dúvidas em aceitar o convite para trabalhar na Lusoponte», afirmou ao Diário Económico o ex-ministro das Obras Públicas de Cavaco Silva, engenheiro Ferreira do Amaral.
Recorde-se o caso: o engenheiro Ferreira do Amaral foi o ministro das Obras Públicas que negociou e assinou o contrato da construção da Ponte Vasco da Gama com o consórcio «Lusoponte», dando aos construtores, em «contrapartida», a exclusividade na construção e exploração de qualquer nova ponte entre Vila Franca de Xira e a foz do Tejo, isto, segundo ele, para defender os interesses do País e «garantir que se fizesse a obra»; saído do Governo, alguns anos depois o mesmo engenheiro Ferreira do Amaral é contratado pela «Lusoponte» para integrar a sua administração onde, agora, defende os interesses desta empresa contra o País em geral com o mesmo afinco com que, há uns anos, terá defendido os interesses do País contra esta mesma empresa.
Resumidamente é isto, do ponto de vista moral, que não levanta «dúvidas» ao engenheiro. Trata-se de um estado de felicidade absoluta, pois será notoriamente o único a não as ter, no caso. Não ter dúvidas, evidentemente, que outras coisas há-de ter, como os fabulosos «honorários de administrador» tão falados hoje em dia.
Mas o engenheiro, se não tem dúvidas, em compensação exibe opiniões e certezas. Garante, por exemplo, que «a exclusividade era uma solução obrigatória, na altura, porque se não houvesse essa cláusula não havia interessados na obra», que por isso «não se fazia», para acrescentar logo de seguida, quando tentava justificar a legitimidade que assistiria à Lusaponte em «se proteger» com «exclusividades», que «um Estado mal intencionado» podia «fazer uma ponte ao lado, o que levava à falência o concessionário e ficava com a ponte para si». Afinal em que ficamos? Primeiro, o Estado português teve de ceder a «exclusividade» à Lusoponte para arranjar privados que financiassem a construção da ponte (o que significa a admissão de que o próprio Estado não tinha meios para isso) e, logo de seguida, a «exclusividade» explica-se como arma dos privados para impedir o Estado de construir outra ponte? Então por que não se pôs logo o Estado a construir a Vasco da Gama e se engendrou este negócio leonino que entregaria o Tejo à Lusoponte (e, anos depois, a gestão da Lusoponte a Ferreira do Amaral)?
Outra certeza curiosa de Ferreira do Amaral é a de que «estava convencido na altura de que não seria necessária a concessão de mais nenhuma travessia rodoviária no Tejo». Também deve ser o único português – ainda por cima engenheiro, ao que consta inscrito na Ordem e nem sequer formado à pressa na Independente - que ignora o que o mais distraído habitante da Grande Lisboa sabe: é que várias travessias rodoviárias no Estuário do Tejo são reivindicadas desde os finais do século XIX como uma urgência que não pára de crescer.
Para rematar, o engenheiro até confessa que «sou uma pessoa relativamente indicada para o cargo» na Lusoponte, pois «conheço o que estava em causa, a filosofia das relações com o Estado», valorizando o óbvio – o seu know how como governante -, para logo de seguida desvalorizar esse know how dizendo que «a empresa [Lusoponte] com que assinei o contrato não é a mesma», pois «mudaram os accionistas de referência».
Mas não mudou ele. Nem os interesses que levaram à constituição da Lusoponte. A mesma que ele ajudou a organizar quando assinou o contrato e que agora defende como administrador.
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