Cuidadinho

Leandro Martins
Descansem os antitabagistas frenéticos que não vamos aqui falar do tabaco, dos seus malefícios e da atabalhoada imposição da lei que não prevê excepções – a não ser para os detentores de cargos de alto coturno que podem aceder aos jantares e festas de casino. Mas vamos falar do cuidadinho que é preciso – o poeta O´Neil diria «respeitinho», ao jeito dos cuidados que quem viveu os tempos do fascismo bem conheceu – quando se protesta contra quaisquer malefícios que atinjam a «cidadania» de cada um.
Já sabíamos que, exercendo o direito de greve, os trabalhadores podem sofrer as cargas e vilipêndios das forças repressivas a mando do patronato e do Governo; que os activistas sindicais são discriminados e despedidos; que os sindicalizados são preteridos ou afastados nas empresas. E que o novo Código cozinhado pelo PS, em concordância com o capital, prepara novas e muito piores condições para quem vive do seu trabalho.
Já sabíamos que, juntando falsidades às quebras de promessas, o desemprego aumenta, os salários reais descem, a inflação é superior – sempre – ao anunciado, as pensões acabam por ser atingidas pelas remodelações caridosas deste Governo. Já sabemos que, de acordo com a política de submissão aos grandes da União Europeia, Portugal está mais pobre, infeliz e de futuro comprometido na sua soberania.
Sabemos também – e de que maneira! – que os hospitais, centros de saúde e maternidade fecham, assim como fecham escolas; que empresas encerram e são deslocalizadas; que os juros do crédito à habitação aumentam; que, na vaga de privatizações, os serviços públicos – como é o caso dos transportes – rareiam, são caros e degradam-se.
Então, protestemos! Defendamos os nossos direitos! E, na base da indignação popular, formaram-se por todo o País grupos de utentes de serviços e de direitos, que se juntam e protestam vigorosamente.
Eis, porém, que uma notícia nos saltou aos olhos, no Jornal de Notícias de terça-feira. Uma cidadã – uma! – resolveu há mais de dois anos, reclamar num restaurante que a comida era má e que esperou hora e meia que lhe apresentassem o livro de reclamações. A queixa não teve andamento. Mas, por seu lado, o proprietário do restaurante, queixou-se das «expressões desprimorosas» da utente. Resultado: a cidadã foi condenada pelo protesto. Por isso – cuidadinho! Quem protesta deve fazê-lo em força. Ou arrisca-se a 75 dias de prisão. Remíveis a 15 euros por dia...
É mesmo preciso acabar com este regime socratista.


Mais artigos de: Opinião

Contra o Tratado, prosseguir a luta!

A decisão (ou não será antes o anúncio da decisão a que se comprometera com os seus pares doutros países da U.E.?) do governo PS/Sócrates de ratificação parlamentar do novo Tratado da União Europeia e toda a argumentação utilizada pelo primeiro ministro para justificar faltar ao seu compromisso eleitoral e ao programa de governo sobre a realização dum referendo, põe em evidência a dimensão da manobra (e dos acordos que lhe estão subjacentes) que constituiu a recuperação do conteúdo e da natureza da rejeitada «Constituição europeia».

Colômbia – uma oportunidade

A libertação pelas Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC) de Clara Rojas e Consuelo Gonzales é um acontecimento de grande importância, quer no plano da situação político-militar na Colômbia quer do ponto de vista político mais geral, nomeadamente na América Latina.Primeiramente porque a decisão unilateral das...

Ninhada de ovos gorados

Quando os pintos nasciam dos ovos que as galinhas chocavam, havia sempre ovos que não davam pintos. Dizia-se que «estavam gorados». Ou que saíam «goros».Pois foi assim que saiu este governo do PS. Também se pode dizer: a cada cavadela – minhoca. Ou, comparando o que disse e o que faz, que não dá a bota com a perdigota. E...

<em>Esforços de paz</em>

Enquanto que na França se entretém o povo com o romance relâmpago de Sarkozy com Carla Brunni, que parece que já deu casório, e nos Estados Unidos se desenrola essa “profunda” discussão “política” sobre as razões das lágrimas de Hillary Clinton ou ainda sobre qual a cor de pele, sexo ou crença mais adequados para o...

Areias movediças

A escolha de Alcochete jamais para localização do novo aeroporto está a revelar negócios que algumas proeminentes figuras da vida político-económica nacional – que é como quem diz do PS, PSD e afins, dentro e fora do Governo – bem gostariam de manter no segredo dos gabinetes. O caso mais badalado dos últimos dias é o do...