Uribe e o apelo da guerra

Luís Carapinha

O apelo da guerra conduz-nos directamente à Casa Branca

O governo colombiano decidiu de forma unilateral acabar com a mediação desenvolvida pelo Presidente Chávez e a senadora Piedad Córdoba para obtenção de um acordo sobre o Intercâmbio Humanitário com as FARC. A decisão abrupta do governo de Uribe – para a qual não foi apresentada uma justificação plausível - acontece no preciso momento em que o complexo processo negocial evoluía num sentido favorável à perspectiva de um acordo humanitário para troca de prisioneiros. O seu êxito poderia constituir um passo importante para destravar o próprio processo de paz na Colômbia. A interrupção do diálogo deixou assim um sentimento de consternação e frustração em milhões de colombianos, colocando também no ponto mais frágil dos últimos anos as relações entre a Venezuela e a Colômbia, países com uma fronteira comum de mais de dois mil quilómetros.

A presente situação apenas confirma que a paz não é uma opção estratégica para Uribe e o regime da oligarquia e narcopolítica no poder na Colômbia. Tal como nunca o foi também para Washington e o imperialismo norte-americano, sem cujo apoio a política genocida da direita reaccionária colombiana não seria possível - bastará aqui lembrar os milhares de sindicalistas, camponeses e dirigentes políticos de esquerda assassinados nas últimas décadas às mãos do paramilitarismo.
Assolapado pelo verdadeiro escândado da parapolítica e os processos judiciais contra figuras do regime e colaboradores próximos do presidente colombiano por ligações ao paramilitarismo e enfrentando um quadro de eleições locais (que em Outubro confirmaram a vitória na capital, Bogotá, do PDA, a coligação de esquerda que integra o Partido Comunista Colombiano), Uribe encontrou vantagens conjunturais na abertura de um processo negocial. Mas fê-lo sempre de uma forma ambígua, colocando permanentemente novos entraves e obstáculos a cada possibilidade de avanço das negociações. Uma postura de má-fé que culminou com a suspensão do processo de mediação iniciado há três meses – atitude que as FARC já qualificaram de «muito miserável» e que no seu entender torpedeia «a única esperança» para alcançar um acordo de troca de prisioneiros na Colômbia.
Um desfecho que para Carlos Lozano, director do semanário do PCC, La Voz, mostra que a «única opção» de Uribe é «a guerra fratricida».

Apelo da guerra que nos conduz directamente à Casa Branca e à estratégia dos EUA para a região, nomeadamente à vasta contra-ofensiva do imperialismo para impedir e liquidar os avanços progressistas e populares em curso na América Latina. Da Venezuela à Bolívia rufam os tambores da reacção e soltam-se os cães de fila do império (veja-se a este respeito o sintomático editorial sobre a Bolívia do jornal Público de 26.11). É perigosa e escalada verbal entre Bogotá e Caracas e gravíssimas e elucidativas - tanto mais que em vésperas da realização do referendo Constitucional de 2 de Dezembro na Venezuela - as declarações de Uribe, acusando o presidente venezuelano de legitimar o «terrorismo», pretender «incendiar o continente» e fomentar um «projecto expansionista» (El Universal, 26.11). A opção de guerra de Uribe, isto é, de Washington, significa a prossecução do Plano Patriota e do Plano Colômbia e faz jus ao papel da Colômbia – com o exército mais bem equipado do sub-continente – de ponta de lança da manobra subversiva do imperialismo na América Latina. Que terá, todavia, que contar com a resistência dos povos em luta e a solidariedade de todos os que no mundo se opõem à exploração capitalista e ao imperialismo.


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