Comentário

Confiança

Ilda Figueiredo
As visitas e debates em que participamos pelas diversas zonas do País são sempre uma importante oportunidade para aprofundar o conhecimento da evolução da realidade regional e local e o momento de troca de opiniões e informações sobre as posições que tomamos no Parlamento Europeu.
Por vezes, são também momentos de agradáveis surpresas revelando a confiança que as pessoas têm no nosso Partido, mesmo em zonas difíceis, como aconteceu numa freguesia rural de Castelo de Paiva, no culminar de uma visita recente ao distrito de Aveiro. Quando, já noite caída, chegámos para um jantar-debate, fui surpreendida por um grupo de mulheres que me disseram estar à espera há duas horas. Perguntei-lhes se eram da antiga Clarks, a fábrica de calçado que encerrou há cerca de cinco anos e lançou no desemprego mais de 600 mulheres, numa zona onde não há alternativas de emprego, apesar das promessas então feitas e da visibilidade que também teve outra tragédia que atingiu as famílias do concelho, com a queda da ponte. Responderam-me que não. Eram a maioria das mães de treze crianças da escola do primeiro ciclo de Sabariz, que a DREN decidiu encerrar, sem qualquer aviso prévio às famílias, apesar de ter excelentes condições, onde houve obras recentemente, enviando as crianças para uma outra escola, a cerca de três quilómetros de distância, com tectos a ameaçar ruína e sem sequer ter cantina.
De imediato improvisámos uma reunião com a participação do responsável distrital do PCP, João Frazão, também presente, e depois de esclarecermos que não tínhamos ali eleitos, abordámos as várias possibilidades de apoio à luta que aquelas mães estavam a promover na defesa dos seus filhos, agradecendo também a confiança que em nós depositavam, num momento em que consideravam que não tinham o apoio de outras forças políticas.
Na noite em que escrevo este texto, já em Estrasburgo, para mais uma sessão parlamentar, três dias depois da referida abordagem das mães de Sabariz, vi na RTP internacional a reportagem da luta destas mulheres, que improvisaram uma aula com as suas crianças para mostrarem o contraste entre a escola que a cegueira economicista do Ministério da Educação quer encerrar e as condições deficientes da escola para onde decidiu transferir estas crianças. Pude igualmente verificar o apoio que receberam do presidente da Câmara de Castelo de Paiva, a quem tínhamos pedido ajuda, quando ele apareceu no tal jantar-debate que o PCP realizou na semana passada, e em que participei. Fiquei satisfeita com a esperança que certamente renasceu naquelas mães que, corajosamente e com toda a confiança, esperaram por nós durante duas horas para nos pedirem apoio, quando já tudo parecia perdido. É certo que a reportagem não deu uma palavra sobre o papel do PCP neste processo. Também não era isso que estava em causa. Mas sei que os nossos camaradas fizeram tudo o que foi possível para dar visibilidade a esta justa luta, incluindo para a realização da acção que acabo de ver na televisão. Desconheço ainda o que vai fazer a DREN. A reportagem referiu que não tinham conseguido obter qualquer resposta da responsável. Espero que, por uma vez, haja um resto de sensibilidade e bom senso no Ministério da Educação para manter aquela escola a funcionar, pelo menos até que a outra tenha condições idênticas.
Em Castelo de Paiva outros problemas graves persistem, tendo em conta que continua por concretizar o investimento prometido aquando do encerramento da Clarks e da queda da ponte de Entre-os-Rios. Centenas de mulheres continuam no desemprego, mais pobres e mais sós, por que os homens vão saindo para Espanha e outros locais à procura do emprego que ali lhes é negado.
Vamos continuar a apoiar a justa luta destas populações pela criação de emprego com direitos e pelo desenvolvimento regional a que justamente aspiram. É preciso que os fundos comunitários inscritos no QREN também sirvam para criar emprego, manter serviços públicos e melhorar as condições de vida das populações. Pela nossa parte, continuaremos a honrar a confiança que as populações depositam em nós.


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