Silêncios…

Ângelo Alves
Sobre o tema que suscita estas linhas desconhece-se até ao momento qualquer declaração do governo português e a notícia foi divulgada de forma rotineira pela comunicação social. Falamos da partida para o Afeganistão de 120 militares portugueses que irão render a força de comandos portugueses que aí completou uma missão de seis meses. Ou seja, falamos da continuação da participação portuguesa na guerra de agressão contra o povo do Afeganistão iniciada em 2001 ironicamente sob o nome de código «enduring freedom» (liberdade duradoura).
Uma guerra «duradoura» que já provocou directa e indirectamente várias dezenas de milhar de mortos (só no último ano e meio mais de 6.500 pessoas) e que empurrou para a condição de refugiados bem mais de 2 milhões de pessoas. Uma guerra “duradoura” que se prolonga há já seis anos, que está a alastrar instabilidade e insegurança a toda a região e que tem levado o país ao completo caos e paralisia. Uma guerra cada vez mais mortífera e violenta e que do ponto de vista da intensidade de combate é perfeitamente comparável à guerra do Iraque.
Foi para aqui que os militares portugueses partiram. É importante lembrá-lo.
É importante lembrar porque, apesar do silencio relativamente a esta partida – provavelmente ditado pelas condições de alto risco que os militares portugueses vão encontrar – os responsáveis políticos portugueses têm insistido na tese - desmentida pelas notícias da intensidade da guerra - de que os soldados portugueses estão lá para ajudar à estabilização do país, para combater o terrorismo e… pasme-se o narcotráfico.
Sobre a estabilização do país ficam as declarações do responsável militar agora rendido «Seria completamente utópico esperar segurança e estabilização a curto prazo para todo o país»(1) . Sobre o combate ao terrorismo a situação internacional e as acções dos EUA e da NATO de bombardeamentos indiscriminados a civis falam por si. Sobre o narcotráfico são vários os estudos que comprovam o que as Nações Unidas acabam de revelar: «o Afeganistão tornou-se no país do mundo onde a maior área de terras cultiváveis está afectada à produção de drogas»(2) . Outros testemunhos, insuspeitos, são eloquentes sobre quem ganha com isso, como o de Craig Murray, ex-embaixador britânico no Uzbequistão: «os quatro maiores detentores do negócio da heroína são todos membros do governo Afegão – o governo pelo qual os nossos soldados estão a combater e a morrer»(3) . Palavras para quê? Nem Luís Amado as tem, pelos vistos…

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(1) Lusa, 27 de Agosto 2007
(2) Afghanistan Opium Survey 2007 - UNODC
(3)“Britain is protecting the biggest heroin crop of all time” (Craig Murray) 21 Julho 2007 - Daily Mail


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