Estratégias

Henrique Custódio
Num jornal local de nome Sem Mais, em repolhuda página subordinada ao momentoso título «PS e BE medem coligação no distrito» o presidente da Federação do PS de Setúbal, Vítor Ramalho, não está com meias medidas e promete que «tudo fará» para alterar o «actual quadro político na região», pelo que, «se isso implicar entendimentos ou coligações, o Partido Socialista irá fazê-los». Com quem? O dirigente PS também não hesita e determina que «o peso do Bloco não é negligenciável», pelo que considera que o entendimento entre os dois partidos «é de ponderar».
«Com esta estratégia», acrescenta o jornal, «o PS poderia conquistar algumas presidências aos comunistas», objectivo que o presidente Ramalho justifica com a suposição, lá muito dele, de que a CDU «está a passar um mau momento na gestão da câmara de Setúbal», para a qual «não tem estratégia», o que também acontece, sempre segundo ele, com «os restantes concelhos do arco ribeirinho onde os comunistas são poder».
Supomos que a «falta de estratégia» da CDU que este sr. Ramalho identifica em Setúbal deve ser a mesma que, há apenas dois anos, deixou o PS à distância de metade dos seus votos, isto após um outro mandato de quatro anos com que a mesma CDU varreu a gestão PS que se instalara há mais de uma década no concelho, e tão ruinosamente que o eleitorado a expulsou com uma maioria absoluta devolvida à CDU.
Quanto aos «concelhos do arco ribeirinho», valem uma mirada. No Barreiro, também há dois anos, o PS foi corrido pela CDU com uma expressiva diferença de quase 10 pontos percentuais, isto após ter encalacrado a câmara com dívidas e sinecuras para amigos, mas nenhum trabalho, tudo apenas num curto mandato de quatro anos que a população lhe dera por escassa margem de votos. Em Alcochete, outro concelho do tal «arco ribeirinho» que sempre foi de gestão CDU, o PS teve há seis anos oportunidade de mostrar o que valia – como aliás propagandeava descaradamente – e tão bem o fez, que essa mesma população os escorraçou quatro anos depois, devolvendo o poder à CDU. Em Sesimbra, onde Ramalho olha para os últimos votos do PS e do BE que, somados, ultrapassaram a CDU, o cavalheiro esquece um pormenor: é que a CDU derrotou precisamente o PS, e pelo seu mau trabalho, desalojando-o do poder há apenas dois anos. Quanto à Moita, nem vale a pena alongar a conversa: sucessivas maiorias absolutas da CDU dão resposta cabal à extravagante «falta de estratégia».
Em suma, Vítor Ramalho não tem propostas, planos ou sequer críticas às gestões actuais (acusar os outros de «falta de estratégia» só mostra falta de ideias), simplesmente deseja, à viva força, conquistar o poder. Com particularidades: ambiciona fazê-lo em três câmaras onde o PS foi corrido há apenas dois anos por flagrante incompetência (Barreiro, Alcochete e Sesimbra), numa quarta onde o PS já vai no segundo mandato de «despejo» (Setúbal) e numa quinta onde os seus votos andaram sempre pela metade dos da CDU (Moita). Para isso até já delira com alianças com o Bloco de Esquerda, arrebanhando as suas votações subsidiárias.
Quanto ao BE, pois claro, já por lá se bandeiam excitados com a hipótese. António Chora, esse sindicalista fatal da Auto-Europa, já exibiu a farronca declarando que o BE «obrigará» o PS a entendimentos, enquanto Joaquim Raminhos, vereador na Moita e único eleito autárquico do BE no Distrito, reconheceu pressurosamente que «têm existido posições convergentes entre o BE e o PS».
Que dizer? São os «Zés que fazem falta»... mas a si próprios, evidentemente.


Mais artigos de: Opinião

A Alemanha afunda-se no Afeganistão

No Afeganistão, sucedem-se as baixas alemãs de soldados e de forças de segurança, de civis ao serviço de firmas estrangeiras ou de cooperantes das chamadas organizações «humanitárias». Depois da morte recente de vários soldados da Bundeswehr no norte do país, seguiu-se poucos dias depois um ataque em Cabul no qual foram...

O fantasma bateu à porta

Na última semana o fantasma da Crise bateu às portas do mundo. Como os génios maus dos contos de Xerazade que saíam de vasos encontrados à beira-mar, este saiu da Bolsa de Nova Iorque, e logo aterrorizou o mundo com o seu vulto sombrio, que Camões descreveria como «ingente, fero e temeroso».Desta vez, o susto foi maior...

A resposta

A 16 e 17 de Abril deste ano realizou-se em Rabat a IX Cimeira Luso Marroquina. José Sócrates lá rumou a Rabat, fazendo deslocar, nada mais, nada menos do que um terço do Governo à capital marroquina.Em 20 de Abril o PCP apresentou ao Governo um requerimento sobre várias questões relacionadas com esta Cimeira e...

Em comunhão

Louçã decidiu aduzir argumentos em favor do acordo estabelecido com o PS em Lisboa. Adereçadas por umas quantas afirmações demagógicas, Louçã justificou a coisa zurzindo no PCP. Se por aquelas bandas a expectativa com a presente crónica seria a de ver nela insinuado que, com tal acordo, o seu vereador buscou ocupação e o...