Tortura, morte e poesia
O imperialismo tem denunciado sistematicamente que em Cuba se tortura. E está no certo. Numa zona com pouco mais de 117 km2 há presos que não sabem de que estão acusados, não têm direito à defesa, não recebem visitas, são torturados e assassinados. Alguns suicidam-se. Estamos em Guantanamo, base militar imperialista na cidade do mesmo nome, que o poeta e patriota José Martí, universalizou na canção Guantanamera.
Em 1741, a Inglaterra desembarcou tropas na cidade com a finalidade de estabelecer uma zona fortificada que permitisse a invasão da parte oriental de Cuba, nesse tempo sob domínio da Espanha. Nos inícios do século XIX, a ilha tentou sacudir o jugo castelhano. Em 1898, quando tudo indicava que Martí e António Maceo levariam a melhor sobre Madrid, a águia imperial abateu-se sobre o império espanhol e desembarcou em Guantanamo. Entre 1899 e 1902, a ilha ficou sob a bota de Washington, que impôs uma Constituição na qual se incluía a Emenda Platt, que lhe dava o direito de intervir militarmente na ilha e de, através de um Tratado Permanente, reter Guantanamo. Estava selada a história da cidade e, durante várias décadas, a do país. Sucessivos governos fantoches aceitaram de bom grado o novo império que, sempre que era necessário, dava uma mãozinha para manter os privilégios da oligarquia crioula. Assim foi em 1912, quando forças militares saíram da base para assassinar os membros do Movimento dos Independentes de Cor. Anos mais tarde, entre 1957 e 1958, durante a ditadura de Batista, responsável pela morte de mais de 20 mil cubanos, foi dali que partiram os aviões para bombardear os barbudos de Sierra Maestra. Depois do triunfo da Revolução, a base militar nunca deixou de ser um centro de agressão contra o povo cubano. De 1962 até ao momento, são 5236 os actos de provocação e 8262 as violações do espaço aéreo e das águas territoriais de Cuba. Guantanamo é uma afronta com mais de um século e pela qual Washington paga um aluguer de 4085 dólares por ano!
História de Guantanamo
No quadro da «guerra contra o terrorismo», Bush transformou a base militar numa prisão que nada fica a dever a Abu-Graib e onde mais de 500 «terroristas» estão detidos e têm menos direitos do que as lagartixas da região. Que grande parte do mundo civilizado e até a ONU exijam o encerramento «imediato» daquelas instalações infames porque nelas se pratica a tortura, não é coisa que chegue aos ouvidos de Bush, o mais incompetente de todos os presidentes dos Estados Unidos... e repare-se que a concorrência é forte!
Recentemente, um dos reclusos foi «encontrado sem respiração» na sua cela.
Os «indícios apontam, segundo a BBC, para a hipótese do suicídio» e a informação acrescenta acepticamente que «se iniciou uma investigação» e que «o cadáver estar a ser tratado (...) com a sensibilidade cultural e os rituais religiosos apropriados». Que linguagem tão elegante!
Michael Ratner confessa à agência AP «que o mais provável é que a morte se deva a um acto de desespero» e tem este desabafo: «São cinco anos e meio de desespero sem uma saída legal». Este não é o primeiro e talvez não seja o último suicídio a ter lugar no único lugar de Cuba onde se tortura e leva os presos à morte. Mas isto não incomoda as autoridades da base ou dos elegantes salões da Casa Branca. Um alto funcionário foi capaz de afirmar que estes suicídios são «um acto de guerra assimétrica» e «uma boa medida de relações públicas» por parte dos suspeitos de actos de terrorismo.
Mas de Guatanamo também chegam poemas: a voz dos presos é um poemário onde estão recolhidos alguns dos versos dos presos. Foram coligidos por Mark Falkoff, um norte-americano professor de direito, que dirige a defesa de 17 presos do Iémen. Serão menos de 90 páginas onde se assoma a ponta da tragédia de um grupo de homens que perdida a esperança na justiça ainda confia na poesia. The Independent publicou há dias um desses poemas. O autor, Jumah al Dossari, tem 33 anos e já tratou de se suicidar 12 vezes. «Tomai o meu sangue/ tomai o meu sudário de morte/ o que resta do meu corpo. / Tomai fotografias do meu corpo, só. /Enviai-as ao mundo/ Aos juizes e / à gente com consciência. / Enviai-as aos homens de princípios e mente justa.»
Palavras que não serão lidas, muito menos sentidas, na Casa Branca.
Em 1741, a Inglaterra desembarcou tropas na cidade com a finalidade de estabelecer uma zona fortificada que permitisse a invasão da parte oriental de Cuba, nesse tempo sob domínio da Espanha. Nos inícios do século XIX, a ilha tentou sacudir o jugo castelhano. Em 1898, quando tudo indicava que Martí e António Maceo levariam a melhor sobre Madrid, a águia imperial abateu-se sobre o império espanhol e desembarcou em Guantanamo. Entre 1899 e 1902, a ilha ficou sob a bota de Washington, que impôs uma Constituição na qual se incluía a Emenda Platt, que lhe dava o direito de intervir militarmente na ilha e de, através de um Tratado Permanente, reter Guantanamo. Estava selada a história da cidade e, durante várias décadas, a do país. Sucessivos governos fantoches aceitaram de bom grado o novo império que, sempre que era necessário, dava uma mãozinha para manter os privilégios da oligarquia crioula. Assim foi em 1912, quando forças militares saíram da base para assassinar os membros do Movimento dos Independentes de Cor. Anos mais tarde, entre 1957 e 1958, durante a ditadura de Batista, responsável pela morte de mais de 20 mil cubanos, foi dali que partiram os aviões para bombardear os barbudos de Sierra Maestra. Depois do triunfo da Revolução, a base militar nunca deixou de ser um centro de agressão contra o povo cubano. De 1962 até ao momento, são 5236 os actos de provocação e 8262 as violações do espaço aéreo e das águas territoriais de Cuba. Guantanamo é uma afronta com mais de um século e pela qual Washington paga um aluguer de 4085 dólares por ano!
História de Guantanamo
No quadro da «guerra contra o terrorismo», Bush transformou a base militar numa prisão que nada fica a dever a Abu-Graib e onde mais de 500 «terroristas» estão detidos e têm menos direitos do que as lagartixas da região. Que grande parte do mundo civilizado e até a ONU exijam o encerramento «imediato» daquelas instalações infames porque nelas se pratica a tortura, não é coisa que chegue aos ouvidos de Bush, o mais incompetente de todos os presidentes dos Estados Unidos... e repare-se que a concorrência é forte!
Recentemente, um dos reclusos foi «encontrado sem respiração» na sua cela.
Os «indícios apontam, segundo a BBC, para a hipótese do suicídio» e a informação acrescenta acepticamente que «se iniciou uma investigação» e que «o cadáver estar a ser tratado (...) com a sensibilidade cultural e os rituais religiosos apropriados». Que linguagem tão elegante!
Michael Ratner confessa à agência AP «que o mais provável é que a morte se deva a um acto de desespero» e tem este desabafo: «São cinco anos e meio de desespero sem uma saída legal». Este não é o primeiro e talvez não seja o último suicídio a ter lugar no único lugar de Cuba onde se tortura e leva os presos à morte. Mas isto não incomoda as autoridades da base ou dos elegantes salões da Casa Branca. Um alto funcionário foi capaz de afirmar que estes suicídios são «um acto de guerra assimétrica» e «uma boa medida de relações públicas» por parte dos suspeitos de actos de terrorismo.
Mas de Guatanamo também chegam poemas: a voz dos presos é um poemário onde estão recolhidos alguns dos versos dos presos. Foram coligidos por Mark Falkoff, um norte-americano professor de direito, que dirige a defesa de 17 presos do Iémen. Serão menos de 90 páginas onde se assoma a ponta da tragédia de um grupo de homens que perdida a esperança na justiça ainda confia na poesia. The Independent publicou há dias um desses poemas. O autor, Jumah al Dossari, tem 33 anos e já tratou de se suicidar 12 vezes. «Tomai o meu sangue/ tomai o meu sudário de morte/ o que resta do meu corpo. / Tomai fotografias do meu corpo, só. /Enviai-as ao mundo/ Aos juizes e / à gente com consciência. / Enviai-as aos homens de princípios e mente justa.»
Palavras que não serão lidas, muito menos sentidas, na Casa Branca.