Dividir para reinar
O princípio milenar de guerra "Divide et regna" – dividir para reinar – usado por Filipe II da Macedónia ou pelo império Romano, continua a ser usado pelo imperialismo. Ao colocar facções de uma população em guerra entre sí não só a ocupação e exploração dos territórios e seus povos fica facilitada, como se criam as condições para justificar a própria intervenção. Se aos olhos da população da metrópole imperial o conflito local tiver origem em conflitos tribais, que precedem qualquer invasão estrangeira, então esta surge até revestida de tons humanitários. A comunicação social joga agora um papel fundamental ao promover uma narrativa de rivalidade étnica, mascarando muitas vezes o papel directo que o império teve em fabricar as cisões entre grupos ou em promover disputas entre grupos pré existentes.
Tomemos como exemplo a guerra civil no Ruanda em 1994, descrita frequentemente como a sublevação violenta da maioria hutu contra a minoria tutsi, mais rica e poderosa. O ódio entre os dois grupos foi certamente um factor instigador da violência. Mas é necessário entender que estes dois grupos correspondem de facto a duas etnias pós-coloniais. A sua criação remonta ao colonialismo alemão e belga que, ao chegar à região, instituiu uma hierarquia de poder, atribuindo cargos de administração aos pastores, de aspecto mais "europeu", que passou a designar como tutsis. A população agrícola, mais "negroide", foi designada como hutu. Nos anos 30, estas designações passaram mesmo a constar nos cartões de identidade, reforçando uma divisão "étnica" sem correspondência biológica ou cultural: a distinção morfológica é ambígua, ambos os grupos falam a mesma língua, e casamentos entre hutus e tutsis eram frequentes. As consequências desta divisão colonial tem repercussões ainda hoje, décadas depois dos colonos terem abandonado a região.
Redesenhar fronteiras
Mais frequentemente, o império destrói as condições de unidade nacional promovendo linhas de fractura entre grupos pré existentes. Veja-se o caso da dissolução da República Federal Socialista da Jugoslávia. Durante décadas, após a segunda guerra mundial, esta federação logrou unir cinco nacionalidades, quatro línguas e três religiões sob uma única presidência e Constituição. O país estava dividido em repúblicas administrativas, que gozavam de grande autonomia relativamente ao governo federal central. A unidade nacional sofreu um duro golpe com a morte de Tito, que sempre havia combatido o surgimento de nacionalismos. Nas repúblicas mais ricas, como na Eslovénia e Croácia, as elites viram a independência como uma oportunidade para deixarem de contribuir para o cofres federais. Os elementos de fractura estavam presentes, mas o Ocidente teve um papel determinante nesse processo. O Congresso dos EUA aprovou legislação congelando o apoio económico à Jugoslávia, mas prometendo fundos às repúblicas que realizassem eleições "independentes". Após a sua eleição em 1990, o Presidente da Croácia, Trudjman, armou clandestinamente uma força militar que serviria de futuro exército croata independente. Quando Belgrado ameaçou tomar medidas contra esta clara traição à Constituição e ameaça à unidade federal, os EUA intercederam a favor da secessão da Croácia. A auto declarada independência das repúblicas da Eslovénia e Croácia foi rapidamente reconhecida pela União Europeia e EUA, sem considerar as consequências para as populações sérvias nesses territórios. A destruição da Jugoslávia, exigida pela Alemanha, foi encorajada pelo apoio aos sectores nacionalistas, enquanto o governo central que procurava manter a unidade multinacional da federação e assegurar os direitos das minorias nas repúblicas secessionistas era pintado como opressor.
Vemos de novo esta técnica no Iraque ocupado. A Autoridade Provisória, liderada por Paul Bremer, desenhou uma Constituição e mapa político com traços religiosos, encorajando assim as actuais disputas de poder entre xiitas, sunitas e curdos. A guerra civil limita os ataques às tropas ocupantes, e em certa medida justifica a continuação das forças ocupantes. As milícias religiosas constituem recursos operacionais: os EUA estão a financiar grupos sunitas, alguns com ligações à al-Qaeda, para combater grupos xiitas apoiados pelo Irão. E uma unidade nacional enfraquecida facilita o repartir de recursos entre as grandes transnacionais. Os EUA têm inclusivamente uma proposta para redesenhar as fronteiras da região. Como se tratasse de decoração paisagística.
Tomemos como exemplo a guerra civil no Ruanda em 1994, descrita frequentemente como a sublevação violenta da maioria hutu contra a minoria tutsi, mais rica e poderosa. O ódio entre os dois grupos foi certamente um factor instigador da violência. Mas é necessário entender que estes dois grupos correspondem de facto a duas etnias pós-coloniais. A sua criação remonta ao colonialismo alemão e belga que, ao chegar à região, instituiu uma hierarquia de poder, atribuindo cargos de administração aos pastores, de aspecto mais "europeu", que passou a designar como tutsis. A população agrícola, mais "negroide", foi designada como hutu. Nos anos 30, estas designações passaram mesmo a constar nos cartões de identidade, reforçando uma divisão "étnica" sem correspondência biológica ou cultural: a distinção morfológica é ambígua, ambos os grupos falam a mesma língua, e casamentos entre hutus e tutsis eram frequentes. As consequências desta divisão colonial tem repercussões ainda hoje, décadas depois dos colonos terem abandonado a região.
Redesenhar fronteiras
Mais frequentemente, o império destrói as condições de unidade nacional promovendo linhas de fractura entre grupos pré existentes. Veja-se o caso da dissolução da República Federal Socialista da Jugoslávia. Durante décadas, após a segunda guerra mundial, esta federação logrou unir cinco nacionalidades, quatro línguas e três religiões sob uma única presidência e Constituição. O país estava dividido em repúblicas administrativas, que gozavam de grande autonomia relativamente ao governo federal central. A unidade nacional sofreu um duro golpe com a morte de Tito, que sempre havia combatido o surgimento de nacionalismos. Nas repúblicas mais ricas, como na Eslovénia e Croácia, as elites viram a independência como uma oportunidade para deixarem de contribuir para o cofres federais. Os elementos de fractura estavam presentes, mas o Ocidente teve um papel determinante nesse processo. O Congresso dos EUA aprovou legislação congelando o apoio económico à Jugoslávia, mas prometendo fundos às repúblicas que realizassem eleições "independentes". Após a sua eleição em 1990, o Presidente da Croácia, Trudjman, armou clandestinamente uma força militar que serviria de futuro exército croata independente. Quando Belgrado ameaçou tomar medidas contra esta clara traição à Constituição e ameaça à unidade federal, os EUA intercederam a favor da secessão da Croácia. A auto declarada independência das repúblicas da Eslovénia e Croácia foi rapidamente reconhecida pela União Europeia e EUA, sem considerar as consequências para as populações sérvias nesses territórios. A destruição da Jugoslávia, exigida pela Alemanha, foi encorajada pelo apoio aos sectores nacionalistas, enquanto o governo central que procurava manter a unidade multinacional da federação e assegurar os direitos das minorias nas repúblicas secessionistas era pintado como opressor.
Vemos de novo esta técnica no Iraque ocupado. A Autoridade Provisória, liderada por Paul Bremer, desenhou uma Constituição e mapa político com traços religiosos, encorajando assim as actuais disputas de poder entre xiitas, sunitas e curdos. A guerra civil limita os ataques às tropas ocupantes, e em certa medida justifica a continuação das forças ocupantes. As milícias religiosas constituem recursos operacionais: os EUA estão a financiar grupos sunitas, alguns com ligações à al-Qaeda, para combater grupos xiitas apoiados pelo Irão. E uma unidade nacional enfraquecida facilita o repartir de recursos entre as grandes transnacionais. Os EUA têm inclusivamente uma proposta para redesenhar as fronteiras da região. Como se tratasse de decoração paisagística.