Jerónimo de Sousa sobre a Greve Geral

«Um grande facto político e social »

«A maior manifestação de protesto e descontentamento, a maior luta dos trabalhadores nestes dois anos, a maior greve com que os governos do PS foram confrontados», assim definiu Jerónimo de Sousa, pela sua «dimensão e conteúdo», a Greve Geral do dia 30.

«A Greve Geral nunca é ponto de chegada mas ponto de passagem para outras lutas»

Falando no debate mensal com o Primeiro-Ministro, realizado faz amanhã uma semana, um dia depois da extraordinária jornada de luta e protesto que mobilizou muitas centenas de milhares de trabalhadores, o Secretário Geral do PCP lembrou que uma greve geral «nunca é ponto de chegada mas ponto de passagem para outras lutas», lutas mais que previsíveis, advertiu, «face às opções políticas» do Governo PS e «aos objectivos anti-sociais que elas comportam e se anunciam».

Miopia política

A forma como o Governo encarou a Greve Geral – primeiro, recorrendo a inadmissíveis pressões e chantagens para desmobilizar e evitar a adesão; depois, manipulando e mentindo sobre o seu alcance e efeitos no sentido de a minimizar – foi de resto motivo para uma dura crítica do dirigente comunista, para quem este comportamento é revelador da mesma «miopia política» que afectou governos anteriores em idênticas ocasiões.
Verberado em particular foi o secretário de Estado de Emprego, um dos sete governantes destacados para porta-vozes do Executivo, que, com «desmedida sobranceria», «como se nada tivesse acontecido», disse que o «Governo irá prosseguir os esforços de modernização do país».
«No fundo a mesma ideia que está subjacente à intervenção do Primeiro-Ministro», acrescentou o líder comunista, vendo neste discurso uma aproximação à «tese do "deserto" do Ministro das Obras Públicas»
«Se este não vê pessoas na Margem Sul, alguns ministros e secretários de Estado mal viram trabalhadores em greve», ironizou Jerónimo de Sousa, que não deixou passar sem reparo essa «nova ficção» criada pelo Governo de que uma greve geral só teria êxito se parasse tudo. Ora isso é «coisa que nunca acontecerá aqui, nem em parte nenhuma do mundo», garantiu, desmontando o absurdo da tese com um exemplo: «se se fizer um apelo a todos os trabalhadores para uma manifestação nacional e nela participarem um milhão e meio, então, estaremos perante um fracasso porque faltaram lá quatro milhões».
«É a lógica de quem na Administração Pública e nos transportes usou métodos em nada diferentes dos comportamentos patronais mais refinados e repressivos contra o exercício democrático do direito à greve», acusou, prosseguindo: «Nunca há-de perceber o que é que levou tantos homens, mulheres e jovens, ali na Quimonda, nos call centers das telecomunicações, em empresas metalúrgicas, eles sim com grande consciência e coragem a vencer o medo, a fazer greve mesmo com a ameaça da perda do emprego ou da punição na sua carreira, da perda do prémio de um dia de salário que tanta falta faz à vida endividada, numa relação de forças profundamente desfavorável aos trabalhadores, com tanta precariedade, desemprego e injustiça».

Compromisso com os trabalhadores

Jerónimo de Sousa chamou ainda a atenção para aqueles, ainda, que «quereriam fazê-la e não tiveram condições para nela se incorporarem designadamente pelos fortes constrangimentos causados pelo carácter precário dos seus vínculos e pelo receio de retaliações patronais».
José Sócrates, na resposta, voltou a repetir a ideia defendida em debate anteriores de que o PCP não pode falar em nome da maioria dos trabalhadores nem invocar o património de valores da esquerda.
Na réplica, Jerónimo de Sousa teve de lembrar ao chefe do Governo que o PCP, pela sua parte, tem e assume de facto um «compromisso com os trabalhadores, com os seus interesses e direitos, independentemente da sua opção política e ideológica».
«É assim a nossa natureza, é assim a nossa identidade e assim caminharemos, assim continuaremos a lutar e a solidarizarmo-nos com os trabalhadores, agora e no futuro», asseverou.

Realidade desmente modernização

Não se esgotou na importante questão da Greve Geral, introduzida pela bancada comunista, este debate mensal onde o Governo foi anunciar um programa para garantir a meio milhão de pessoas – estudantes, professores e trabalhadores em formação – o acesso a preços mais baixos a um computador e à Internet de banda larga.
O Secretário-Geral do PCP, a este respeito - para além de questionar a oportunidade do tema escolhido, assinalando que serve para «desviar as atenções» dos grandes problemas e da contestação em curso - , lembrou a José Sócrates que o seu discurso sobre novas tecnologias «nem sequer é novo», e que, hoje como ontem, serve apenas de «biombo atrás do qual se mantém e reproduz o velho modelo de desenvolvimento assente nos baixos salários e no trabalho de fracas exigências de qualificação».
«Na verdade não é o caminho da modernização da economia e do país que este governo prossegue e a realidade está aí para o provar», considerou Jerónimo de Sousa, para quem «não há artifício que possa esconder que é na manutenção do modelo dos baixos salários que se continua a apostar e não na qualificação tecnológica».
O líder do PCP afirmou ainda que «não há cosmética que possa encobrir o facto de o pouco emprego criado, no mar de destruição de emprego, ser maioritariamente "não qualificado", o que é a prova mais que provada que se mantém o modelo de desenvolvimento assente em actividades de fraca qualificação e na sobre-exploração do trabalho».
Mostrando que «nem o país vai bem nem a vida dos trabalhadores e do povo vão melhor», Jerónimo de Sousa inquiriu, a propósito, como é que pode o país ir no bom caminho quando de forma dramática aumenta o desemprego, aumenta o custo de vida, os salários são desvalorizados, e crescem todas as formas de precariedade que atingem já cerca de um milhão e duzentos mil trabalhadores.


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