Por razões várias
Em resumo, a coisa é isto: em Setembro de 2002, o primeiro-ministro britânico Blair apresentou um dossier sobre armamento iraquiano. Esse dossier, pelo seu conteúdo, ajudava a «justificar» a participação da Grã-Bretanha, com os EUA, no acto criminoso que viria a ser a invasão e ocupação do Iraque. Recentemente, a BBC informou que o dossier estava recheado de falsidades: que, afinal, os iraquianos não possuíam as armas invocadas pelo governo Blair. Face a tal notícia, a preocupação primeira do governo de Blair foi a de saber quem teria sido a fonte que fizera chegar a notícia à BBC. Não que a notícia fosse falsa, entenda-se... Falsos eram – e Blair sabia-o - os dados contidos no dossier sobre pretensas armas de destruição maciça na posse do Iraque. Só que, precisamente por não ser falsa, por repor a verdade em relação a uma questão de extrema gravidade, a notícia era, para o governo Blair, altamente perigosa – e impunha-se desmentir a verdade e castigar exemplarmente o culpado da divulgação dessa verdade. O esclarecimento do caso ficou entregue, nomeadamente, ao director de comunicação e estratégia de Blair, Alastair Campbell - que, por sinal, é apontado como o responsável pelas tais falsidades contidas no dossier. Como a BBC, naturalmente, se recusava a denunciar a sua fonte, Campbell anunciou um suspeito: David Kelly, perito em armas de destruição maciça e que havia desempenhado funções como inspector da ONU no Iraque. Ao lançar publicamente a suspeita sobre o nome de David Kelly, Campbel tinha o objectivo óbvio de forçar o jornalista da BBC a revelar a sua fonte. David Kelly foi submetido a «intensos», «cerrados» e «brutais» interrogatórios, primeiro durante quatro dias às ordens do Ministério da Defesa, depois por parte da comissão dos Negócios Estrangeiros da Câmara dos Comuns. Na quinta-feira David Kelly saíu de casa dizendo à mulher que ia dar um passeio. No dia seguinte, de manhã o seu corpo foi encontrado a alguma distância de sua casa. Tinha o pulso esquerdo cortado e, não muito longe, estava uma caixa de analgésicos. Dois dias depois, a BBC, cedendo às pressões, revelava David Kelly como sendo a fonte da notícia que desmascarava a falsidade do dossier de Blair.
O esclarecimento desta situação coloca-se como uma necessidade imperiosa. Por razões várias. Nomeadamente para afastar, de quem lê o relato da morte de David Kelly, a ideia que estamos perante um suicídio assistido.
O esclarecimento desta situação coloca-se como uma necessidade imperiosa. Por razões várias. Nomeadamente para afastar, de quem lê o relato da morte de David Kelly, a ideia que estamos perante um suicídio assistido.