Defender a produção, desenvolver o País
As propostas dos comunistas para o desenvolvimento regional estiveram em destaque em duas sessões públicas, em Setúbal e Coimbra, inseridas na preparação da Conferência Nacional do PCP sobre Questões Económicas e Sociais, que se realiza em Novembro.
«Não há solução persistindo nas mesmas orientações que provocaram a crise»
Coimbra e Setúbal realizaram, respectivamente na passada sexta-feira e sábado, duas sessões públicas de debate inseridas na preparação da Conferência Nacional do PCP sobre Questões Económicas e Sociais, que se realiza nos dias 24 e 25 de Novembro no Seixal. Em ambas as iniciativas esteve presente o secretário-geral do PCP, Jerónimo de Sousa.
Aprofundar a análise sobre as principais potencialidades e estrangulamentos ao desenvolvimento económico das regiões era o principal objectivo das sessões. Em Coimbra, Vladimiro Vale, do Comité Central, afirmou que se tem assistido à «continuada degradação da situação económica, social e ambiental do distrito».
O aparelho produtivo tem vindo a ser destruído através do encerramento e deslocalização de empresas para outros países. Os concelhos de Coimbra e da Figueira da Foz são o «retrato da desindustrialização», acrescentou o dirigente do PCP. Os sectores têxtil, cerâmico e de construção naval, outrora pujantes, têm hoje um carácter residual.
O desemprego surge assim como uma das principais consequências da política de direita no distrito. Vladimiro Vale realçou ainda os mais de 17 mil desempregados, mais de metade dos quais mulheres.
António Moreira, coordenador da União de Sindicatos de Coimbra, da CGTP-IN, considerou mesmo que os últimos cinco anos no distrito de Coimbra ficam marcados pelo encerramento de meia centena de empresas, a que «nem as mais importantes e emblemáticas, pelo prestígio granjeado durante a sua existência activa, escaparam a esta fúria».
Empresas como a Central de Cervejas, a JLC Manufactura de Calçado, Bagir, Scottwool, Apolo Cerâmica, Cerâmica Berardos, Matugal, Le Faubourg, Transportes Jaime Dias, Sociedade de Porcelanas, Mondorel, Revitatêxtil, GS Plásticos e GS Electrónica e Navalfoz são apenas alguns exemplos.
Estado deve intervir
Para Vladimiro Vale, a situação actual do distrito coloca «com urgência a necessidade de romper com a política de direita». Já antes António Moreira tinha afirmado que «existem condições para que o distrito de Coimbra enverede definitivamente pelo caminho do desenvolvimento sustentado, de forma a garantir não só o crescimento económico mas também uma melhoria significativa das condições de vida dos trabalhadores».
Na sua opinião, é urgente concretizar uma estratégia de desenvolvimento para o distrito de Coimbra, que «dinamize o crescimento económico». Para que esse objectivo possa ser alcançado, prosseguiu, há que dar prioridade ao sistema produtivo e parar a destruição do aparelho produtivo.
O dirigente sindical considera necessário exigir-se do Governo «uma urgente e enérgica intervenção junto de várias empresas e sectores de actividade que denotam atravessar uma situação de maior fragilidade». Só assim será possível, defende, responder com soluções e medidas que permitam a «defesa e continuidade dos postos de trabalho existentes» e identificar as empresas com condições para se tornarem competitivas.
Vladimiro Vale lembrou ainda as medidas apontadas pelo Partido na sua última assembleia da Organização Regional, realizada no ano passado, para desenvolver o distrito. As propostas dos comunistas incidem sobre áreas tão variadas como o aparelho produtivo, os transportes e acessibilidades, a saúde, a educação ou o ambiente.
Promover o emprego de qualidade
A Península de Setúbal continua a ser, apesar do encerramento de algumas das suas principais empresas, uma região fortemente industrializada. O sector industrial é ainda dominante ao nível do número de trabalhadores que emprega, cerca de 34,7 por cento do total do distrito.
Na sessão do passado sábado foram debatidas as principais tendências económicas e sociais da região, em torno do documento «Contributos para uma Estratégia de Desenvolvimento da Península de Setúbal», da autoria de Eugénio Rosa, e das intervenções dos participantes.
Mais de metade dos trabalhadores da Península estão concentrados em três concelhos – Almada, Seixal e Setúbal. Em Palmela trabalham 35 por cento dos trabalhadores empregados na indústria transformadora, o que denota a crescente dependência do parque da Autoeuropa.
O desemprego constitui um dos principais entraves ao desenvolvimento da região, destacam os comunistas. Entre Novembro de 2001 e Fevereiro de 2006, o desemprego cresceu, na região, 18 por cento. Por concelhos, o aumento do desemprego fez-se sentir com especial incidência em Sesimbra (mais 43 por cento), Setúbal (mais 38 por cento), e Palmela, Almada e Sines, com aumentos próximos de 30 por cento. Três concelhos – Almada, Seixal e Setúbal – concentram cerca de 22 mil desempregados, ou seja, 56 por cento do total dos desempregados inscritos do distrito de Setúbal.
Actualmente, concluem os comunistas, são as empresas de menor dimensão que ocupam mais trabalhadores e que criam mais emprego. Pelo contrário, são as de maior dimensão que destroem mais postos de trabalho: entre 1999 e 2000, o emprego nas empresas até 9 trabalhadores cresceu em 1.468, enquanto nas empresas com mais de 500 trabalhadores diminuiu em 4.189 postos de trabalho. Só entre 2001 e 2003, foram destruídos mais de seis mil postos de trabalho no sector industrial. Quanto ao emprego criado, realçam os comunistas, é de baixa produtividade.
Para os comunistas, a inversão da crescente destruição do emprego, nomeadamente nas grandes empresas, terá de ser uma prioridade do desenvolvimento do distrito.
A península de Setúbal apresenta dos mais elevados índices de desenvolvimento nas áreas de intervenção do poder local, onde os comunistas dirigem oito das nove câmaras municipais. Já o investimento do Poder Central tem vindo a diminuir sucessivamente.
Jerónimo de Sousa
Mudar de política
O secretário-geral do PCP participou nas duas iniciativas preparatórias da Conferência Nacional, realizadas em Coimbra e em Setúbal. Em ambas as iniciativas, Jerónimo de Sousa teceu fortes críticas à acção do Governo, que responsabiliza pela situação do País. Decorrida que está mais de metade do mandato do Governo, «continuou a agravar-se a situação do aparelho produtivo, aumentou a concentração da riqueza, o desemprego e o trabalho precário, degradou-se o poder de compra e o nível de vida dos trabalhadores e do povo».
Para Jerónimo de Sousa, «não deixa de ser significativo que Portugal não consiga, mesmo num momento em que se acelera o crescimento económico das principais economias europeias, sair de um mediano e muito modesto crescimento que não chega sequer para travar o crescimento do desemprego». A taxa de desemprego atingiu, no primeiro semestre do ano, um valor máximo dos últimos vinte anos, realçou o dirigente do PCP (ver página 8).
Segundo o dirigente do PCP, o aumento do desemprego tem causas muito concretas. Em sua opinião, este aumenta porque prossegue a destruição do sistema produtivo com o encerramento de novas empresas e deslocalizações. E também porque uma política focalizada no crescimento e na criação de emprego é algo que não existe no País.
«Mas o desemprego está a crescer porque uma injusta política de redistribuição do rendimento nacional em detrimento dos salários e das reformas não favorece o desenvolvimento do mercado interno e das empresas que vivem desse mercado», destacou o secretário-geral do PCP. Os processos de reestruturação dos grandes grupos e das grandes empresas «têm sido feitos à custa do emprego», acusou.
Jerónimo de Sousa defendeu que esta situação revela que é necessário uma nova política e que «não há saída para os problemas persistindo com as mesmas orientações e soluções políticas». As mesmas que, no essencial, têm vindo a ser concretizadas por sucessivos governos nos últimos anos.
Aprofundar a análise sobre as principais potencialidades e estrangulamentos ao desenvolvimento económico das regiões era o principal objectivo das sessões. Em Coimbra, Vladimiro Vale, do Comité Central, afirmou que se tem assistido à «continuada degradação da situação económica, social e ambiental do distrito».
O aparelho produtivo tem vindo a ser destruído através do encerramento e deslocalização de empresas para outros países. Os concelhos de Coimbra e da Figueira da Foz são o «retrato da desindustrialização», acrescentou o dirigente do PCP. Os sectores têxtil, cerâmico e de construção naval, outrora pujantes, têm hoje um carácter residual.
O desemprego surge assim como uma das principais consequências da política de direita no distrito. Vladimiro Vale realçou ainda os mais de 17 mil desempregados, mais de metade dos quais mulheres.
António Moreira, coordenador da União de Sindicatos de Coimbra, da CGTP-IN, considerou mesmo que os últimos cinco anos no distrito de Coimbra ficam marcados pelo encerramento de meia centena de empresas, a que «nem as mais importantes e emblemáticas, pelo prestígio granjeado durante a sua existência activa, escaparam a esta fúria».
Empresas como a Central de Cervejas, a JLC Manufactura de Calçado, Bagir, Scottwool, Apolo Cerâmica, Cerâmica Berardos, Matugal, Le Faubourg, Transportes Jaime Dias, Sociedade de Porcelanas, Mondorel, Revitatêxtil, GS Plásticos e GS Electrónica e Navalfoz são apenas alguns exemplos.
Estado deve intervir
Para Vladimiro Vale, a situação actual do distrito coloca «com urgência a necessidade de romper com a política de direita». Já antes António Moreira tinha afirmado que «existem condições para que o distrito de Coimbra enverede definitivamente pelo caminho do desenvolvimento sustentado, de forma a garantir não só o crescimento económico mas também uma melhoria significativa das condições de vida dos trabalhadores».
Na sua opinião, é urgente concretizar uma estratégia de desenvolvimento para o distrito de Coimbra, que «dinamize o crescimento económico». Para que esse objectivo possa ser alcançado, prosseguiu, há que dar prioridade ao sistema produtivo e parar a destruição do aparelho produtivo.
O dirigente sindical considera necessário exigir-se do Governo «uma urgente e enérgica intervenção junto de várias empresas e sectores de actividade que denotam atravessar uma situação de maior fragilidade». Só assim será possível, defende, responder com soluções e medidas que permitam a «defesa e continuidade dos postos de trabalho existentes» e identificar as empresas com condições para se tornarem competitivas.
Vladimiro Vale lembrou ainda as medidas apontadas pelo Partido na sua última assembleia da Organização Regional, realizada no ano passado, para desenvolver o distrito. As propostas dos comunistas incidem sobre áreas tão variadas como o aparelho produtivo, os transportes e acessibilidades, a saúde, a educação ou o ambiente.
Promover o emprego de qualidade
A Península de Setúbal continua a ser, apesar do encerramento de algumas das suas principais empresas, uma região fortemente industrializada. O sector industrial é ainda dominante ao nível do número de trabalhadores que emprega, cerca de 34,7 por cento do total do distrito.
Na sessão do passado sábado foram debatidas as principais tendências económicas e sociais da região, em torno do documento «Contributos para uma Estratégia de Desenvolvimento da Península de Setúbal», da autoria de Eugénio Rosa, e das intervenções dos participantes.
Mais de metade dos trabalhadores da Península estão concentrados em três concelhos – Almada, Seixal e Setúbal. Em Palmela trabalham 35 por cento dos trabalhadores empregados na indústria transformadora, o que denota a crescente dependência do parque da Autoeuropa.
O desemprego constitui um dos principais entraves ao desenvolvimento da região, destacam os comunistas. Entre Novembro de 2001 e Fevereiro de 2006, o desemprego cresceu, na região, 18 por cento. Por concelhos, o aumento do desemprego fez-se sentir com especial incidência em Sesimbra (mais 43 por cento), Setúbal (mais 38 por cento), e Palmela, Almada e Sines, com aumentos próximos de 30 por cento. Três concelhos – Almada, Seixal e Setúbal – concentram cerca de 22 mil desempregados, ou seja, 56 por cento do total dos desempregados inscritos do distrito de Setúbal.
Actualmente, concluem os comunistas, são as empresas de menor dimensão que ocupam mais trabalhadores e que criam mais emprego. Pelo contrário, são as de maior dimensão que destroem mais postos de trabalho: entre 1999 e 2000, o emprego nas empresas até 9 trabalhadores cresceu em 1.468, enquanto nas empresas com mais de 500 trabalhadores diminuiu em 4.189 postos de trabalho. Só entre 2001 e 2003, foram destruídos mais de seis mil postos de trabalho no sector industrial. Quanto ao emprego criado, realçam os comunistas, é de baixa produtividade.
Para os comunistas, a inversão da crescente destruição do emprego, nomeadamente nas grandes empresas, terá de ser uma prioridade do desenvolvimento do distrito.
A península de Setúbal apresenta dos mais elevados índices de desenvolvimento nas áreas de intervenção do poder local, onde os comunistas dirigem oito das nove câmaras municipais. Já o investimento do Poder Central tem vindo a diminuir sucessivamente.
Jerónimo de Sousa
Mudar de política
O secretário-geral do PCP participou nas duas iniciativas preparatórias da Conferência Nacional, realizadas em Coimbra e em Setúbal. Em ambas as iniciativas, Jerónimo de Sousa teceu fortes críticas à acção do Governo, que responsabiliza pela situação do País. Decorrida que está mais de metade do mandato do Governo, «continuou a agravar-se a situação do aparelho produtivo, aumentou a concentração da riqueza, o desemprego e o trabalho precário, degradou-se o poder de compra e o nível de vida dos trabalhadores e do povo».
Para Jerónimo de Sousa, «não deixa de ser significativo que Portugal não consiga, mesmo num momento em que se acelera o crescimento económico das principais economias europeias, sair de um mediano e muito modesto crescimento que não chega sequer para travar o crescimento do desemprego». A taxa de desemprego atingiu, no primeiro semestre do ano, um valor máximo dos últimos vinte anos, realçou o dirigente do PCP (ver página 8).
Segundo o dirigente do PCP, o aumento do desemprego tem causas muito concretas. Em sua opinião, este aumenta porque prossegue a destruição do sistema produtivo com o encerramento de novas empresas e deslocalizações. E também porque uma política focalizada no crescimento e na criação de emprego é algo que não existe no País.
«Mas o desemprego está a crescer porque uma injusta política de redistribuição do rendimento nacional em detrimento dos salários e das reformas não favorece o desenvolvimento do mercado interno e das empresas que vivem desse mercado», destacou o secretário-geral do PCP. Os processos de reestruturação dos grandes grupos e das grandes empresas «têm sido feitos à custa do emprego», acusou.
Jerónimo de Sousa defendeu que esta situação revela que é necessário uma nova política e que «não há saída para os problemas persistindo com as mesmas orientações e soluções políticas». As mesmas que, no essencial, têm vindo a ser concretizadas por sucessivos governos nos últimos anos.