Filmes velhos, perigos novos

Jorge Cadima

Estamos outra vez a ver o mesmo filme

O quarto aniversário da criminosa agressão imperialista contra o Iraque, foi assinalada de formas diferentes. Por toda a parte, com destaque para várias cidades dos EUA, centenas de milhares de pessoas voltaram às ruas para manifestar a sua oposição à catástrofe da ocupação. Mas no Conselho de Segurança da ONU viveram-se este fim-de-semana cenas que fazem lembrar a escalada que conduziu à agressão de 2003.

Parece difícil de acreditar, mas o guião que rodeou a aprovação da resolução 1747, impondo mais sanções ao Irão, não é muito diferente daquele com que os senhores da guerra (incluindo Durão Barroso, que haveria de ganhar a cadeira da Presidência da Comissão Europeia) procuraram «justificar» a agressão ao Iraque. São as acusações sobre armas de destruição em massa. São as inúmeras inspecções que nunca descobrem provas de violações dos acordos internacionais, mas que deixam sempre em aberto a dúvida e transferem para os acusados a impossível missão de provar que não existem violações. É o aumento gradual de sanções, ameaças e provocações, que acabam por conduzir à agressão – independentemente do que façam os países visados. Hoje quase ninguém se atreve a negar que a versão iraquiana deste guião foi uma colossal mentira. Ainda há poucos dias o ex-chefe dos inspectores da ONU no Iraque, Hans Blix, afirmou que os mesmos governos que hoje instigam a condenação do Irão manipularam os seus relatórios. Mas estamos outra vez a ver o mesmo filme.

A hipocrisia e a mentira são enormes. Falam de não-proliferação nuclear. Há uns meses o New York Times (11.9.05) informava que os EUA se preparavam para adoptar como doutrina oficial a possibilidade de ataques nucleares por antecipação (pre-emptive). Já o Los Angeles Times informara (9.3.02) que o Pentágono tem planos para ataques nucleares contra sete países, incluindo o Irão. Há 40 anos que Israel - que nunca assinou o Tratado de Não-Proliferação Nuclear (NPT), nem admite inspecções da ONU - possui armas nucleares. O Parlamento britânico acaba de aprovar uma despesa de 20 mil milhões de libras para modernizar o seu sistema de mísseis nucleares Trident (BBC, 15.3.07). O Paquistão, aliado dos EUA e que, tal como a outra recente potência nuclear vizinha, a Índia, também não é membro do NPT, acaba de efectuar um ensaio com um novo míssil tipo Cruzeiro, de longo alcance e capaz de carregar ogivas nucleares (USA Today, 22.3.07). Mas o Conselho de Segurança – incluindo alguns membros que amanhã poderão estar na mira do imperialismo – parece só ter olhos para o Irão, que assinou o NPT, tem aceite as inspecções da AIEA, e afirma querer apenas um programa de energia nuclear civil. Dois pesos e duas medidas. Ou melhor: apenas o peso e a medida do imperialismo.

Quem duvide da possibilidade de um ataque ao Irão deve meditar sobre a entrevista de 2 de Março (disponível no site www.democracynow.org) do General americano Wesley Clark, que comandou a guerra da NATO contra a Jugoslávia em 1999. Nessa entrevista à jornalista Amy Goodman, o general Clark afirma que os planos de ataque estão em marcha e conta como cerca de 10 dias após o 11 de Setembro visitou o Pentágono. Durante a visita, um dos generais que havia trabalhado sob o seu comando na Chefia do Estado-Maior chamou-o para o informar que já estava tomada a decisão de atacar o Iraque, e não só: «Este é o memorando que descreve como vamos atacar sete países nos próximos cinco anos, começando pelo Iraque e depois a Síria, o Líbano, a Líbia, a Somália, o Sudão e, para terminar, o Irão». Falando dos dias de hoje, Clark confessa algo notável: «Se estivesse no Irão, provavelmente acharia que já estava em guerra com os Estados Unidos […] porque nós estamos a apoiar grupos terroristas, ao que parece, que estão a infiltrar-se e provocar explosões no interior do Irão. E se não somos nós a fazê-lo, digamos então: provavelmente conhecemo-los e estamos a encorajá-los». Assim se faz a «guerra ao terrorismo» do imperialismo.


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