Os dedos todos

José Casanova
José Manuel Fernandes (JMF) é, certamente, o mais primário de todos os pró-americanistas da nossa praça. Peça-se-lhe, por exemplo, que aponte o modelo mais avançado de democracia; o espaço mais amplo de liberdade, de respeito pelos direitos humanos, de amor à paz e de combate ao terrorismo; o paradigma de paraíso terrestre - e ele, por reflexo condicionado, gritará de imediato: «Estados Unidos da América».
Bem podem demonstrar-lhe, com infinita paciência e com mil factos e argumentos, que não é assim, que essas coisas todas que ele louva têm, atrás de si, um sinistro rasto de violência, de crimes, de barbárie, de exploração de países e de povos – que, mesmo assim, ele continuará a dar vivas aos EUA.
Há dias, resolveu responder à questão (por ele próprio colocada) de saber «por que são tão diferentes as duas Américas», ou seja, por que é que «a metade Sul do continente é muito mais pobre que a metade Norte». Garantindo que «a diferença não está nos recursos naturais» (bem pelo contrário: os recursos do Sul são, até, «muito mais generosos», assegura) JMF explica que «a América Latina é pobre porque esses recursos alimentaram e alimentam oligarquias» ociosas. E, no seu jeito fulminante, dispara: «E isso é válido tanto para o petróleo de Chavez como para a coca dos cartéis colombianos, FARC incluídas».
É certo que as citadas oligarquias se têm alimentado do jeito referido por JMF. Só que, essas oligarquias, regra geral postas no poder por governos dos EUA (muitas vezes a ferro e fogo, com os marines a desembarcarem e a varrerem a tiro tudo quanto se opõe às ditas oligarquias), têm sido generosas aliadas dos EUA, para onde canalizam o essencial das riquezas dos seus países. E se JMF quiser dar-se ao trabalho de contar pelos dedos quantos países da América Latina foram ocupados por ferozes e rapaces ditaduras fascistas implantadas ou apoiadas pelos EUA, verificará que não lhe chegam os dedos todos: das mãos e dos pés.
Quanto ao «petróleo de Chavez» e à luta revolucionária das FARC percebe-se (oh, se se percebe!) a raiva de JMF. E no que respeita à «coca dos cartéis colombianos», os EUA que digam a JMF como é.


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