A grande mistificação
O programa da RTP «Os Grandes Portugueses» está a ser alvo de «pirataria», segundo denunciaram esta semana vários órgãos de informação. Ao que consta, desde há alguns dias que está a ser enviada para inúmeros telemóveis uma mensagem, anónima, com os dizeres: «Por favor ligue-me: 760102003».
Quem responde ao apelo descobre que acaba de dar o seu «voto» a Salazar. Na altura de fazer contas aos gastos, descobrirá também que a chamada era de valor acrescentado.
«O seu voto foi para António de Oliveira Salazar. Este voto altera qualquer voto anterior feito por este telefone», informa segundos depois de se ter digitado o número uma voz feminina gravada, que solicita de seguida ao votante à força que indique a idade, sexo e os quatro dígitos do seu código postal.
Os responsáveis pelo programa garantem nada poder fazer contra esta «pura pirataria» e reconhecem que «quase toda a gente cai na cilada», como afirmou Bruno Cerveira ao Público, seja por simples curiosidade ou induzida pelo carácter de urgência da mensagem.
Se já subsistiam abundantes críticas e fundamentadas dúvidas quanto aos objectivos de um programa promovido pela televisão pública para «a eleição do Grande Português», este caso vem ilustrar como um aparentemente inócuo e eventualmente bem intencionado projecto televisivo se pode transformar num perigoso veículo para o branqueamento da História.
Deixando de lado o facto, elementar, de que a concepção de «Grande Português» assenta no preconceito – tão do agrado da direita mais retrógrada – de que é o indivíduo e não o colectivo quem faz a História dos povos, assim se alimentando o mito do «salvador da Pátria», é por demais evidente que uma «votação» deste tipo, independentemente do seu resultado final, estava condenada desde a primeira hora a tornar-se numa grande mistificação. Desde logo porque o pretenso eleitorado não é mais do que uma fatia do público que acompanha as emissões televisivas, e depois porque o suposto controlo da votação assenta num engano (um voto por cada número de telefone) facilmente torneável num país onde o total de telemóveis é largamente superior ao número de habitantes.
Mas é significativo, apesar de tudo, que os piratas apostados na «vitória» de Salazar neste arremedo de escolha tenham sentido a necessidade de recorrer à trapaça para atingir os seus objectivos. Também nos tempos do ditador, que alguns pretendem arvorar hoje em «Grande Português», as eleições não passavam de uma fraude.
Quem responde ao apelo descobre que acaba de dar o seu «voto» a Salazar. Na altura de fazer contas aos gastos, descobrirá também que a chamada era de valor acrescentado.
«O seu voto foi para António de Oliveira Salazar. Este voto altera qualquer voto anterior feito por este telefone», informa segundos depois de se ter digitado o número uma voz feminina gravada, que solicita de seguida ao votante à força que indique a idade, sexo e os quatro dígitos do seu código postal.
Os responsáveis pelo programa garantem nada poder fazer contra esta «pura pirataria» e reconhecem que «quase toda a gente cai na cilada», como afirmou Bruno Cerveira ao Público, seja por simples curiosidade ou induzida pelo carácter de urgência da mensagem.
Se já subsistiam abundantes críticas e fundamentadas dúvidas quanto aos objectivos de um programa promovido pela televisão pública para «a eleição do Grande Português», este caso vem ilustrar como um aparentemente inócuo e eventualmente bem intencionado projecto televisivo se pode transformar num perigoso veículo para o branqueamento da História.
Deixando de lado o facto, elementar, de que a concepção de «Grande Português» assenta no preconceito – tão do agrado da direita mais retrógrada – de que é o indivíduo e não o colectivo quem faz a História dos povos, assim se alimentando o mito do «salvador da Pátria», é por demais evidente que uma «votação» deste tipo, independentemente do seu resultado final, estava condenada desde a primeira hora a tornar-se numa grande mistificação. Desde logo porque o pretenso eleitorado não é mais do que uma fatia do público que acompanha as emissões televisivas, e depois porque o suposto controlo da votação assenta num engano (um voto por cada número de telefone) facilmente torneável num país onde o total de telemóveis é largamente superior ao número de habitantes.
Mas é significativo, apesar de tudo, que os piratas apostados na «vitória» de Salazar neste arremedo de escolha tenham sentido a necessidade de recorrer à trapaça para atingir os seus objectivos. Também nos tempos do ditador, que alguns pretendem arvorar hoje em «Grande Português», as eleições não passavam de uma fraude.