Uma afronta

Anabela Fino
O ritual repete-se todos os anos, não tanto como uma formalidade mas sobretudo como uma necessidade de afirmação da esperança: deseja-se Boas Festas e Feliz Ano Novo, ainda que escasseiem razões para festejar e a felicidade ande arredia. Proferidas as palavras da praxe, como quem diz o santo e a senha, o discurso despoja-se do diáfano manto do devaneio e retoma o trilho da crua realidade, consubstanciando num voto mil vezes repetido – «ao menos haja saúde!» – o que parece ser o último reduto de qualquer ser humano.
Contradições da espécie, está bom de ver, que a saúde é um luxo que coexiste mal com a pobreza, a injustiça, a exploração, o desemprego, a tirania.
Contradição ainda maior em tempo de crise – para o povo, que a crise quando vem não é para todos – por mais que os governantes nos entrem casa dentro sem pedir licença, como se de amigos se tratasse, com mensagens de Natal a garantir que a vida «melhorou» no ano que agora finda e a pedir «confiança» para o que aí vem. Como fez Sócrates há dias, sem vergonha nem pudor, sabendo embora que as notícias do dia e da véspera e dos dias seguintes davam conta com mais ou menos pormenor que as tarifas de electricidade vão aumentar 6 por cento no início do ano para 5,3 milhões de clientes domésticos em Portugal continental; que os preços dos transportes públicos sobem em geral 2,1% (na Carris, o bilhete comprado directamente nos autocarros sofre uma subida de 8,33 por cento); que a partir de 1 de Janeiro haverá novas taxas «moderadoras» na saúde para serviços como o internamento ou cirurgia de ambulatório; que a taxa de imposto sobre os produtos petrolíferos sofre uma actualização de 2,5 cêntimos por litro, para além de estar previsto um novo aumento de acordo com a inflação; que os CTT aumentam os serviços postais em 1,8%; que o preço do pão vai aumentar 20%, o que se reflectirá inevitavelmente em outros preços da restauração; que a água aumenta 2,1% (taxa de inflação esperada); que o café deverá igualmente subir 1,9%, segundo dados da Associação da Restauração e Similares de Portugal; que as previsões dão como certa a subida de 6% no preço da habitação, quer para quem tem créditos à habitação (por via da subida das taxas de juro), quer para quem tem casa arrendada (com a nova Lei das Rendas); que...
As «melhoras» que segundo Sócrates se vão registando «passo a passo» em Portugal – se existem – são apenas perceptíveis em S. Bento. No País real, o que se verifica, é que são cada vez mais os portugueses que trocam Portugal pela Espanha em busca de trabalho e melhores condições de vida.
Segundo dados oficiais do Ministério do Trabalho e Assuntos Sociais espanhol citados pela «Agência Financeira», no final do primeiro semestre de 2006 eram já 66 107 os portugueses com cartão ou autorização de residência em Espanha. De acordo com a mesma fonte, no final de 2003, as autorizações concedidas a portugueses não iam além das 45 614. Esse número cresceu para 50 995 no final de 2004 e depois novamente para 59 787 no fim do ano passado. Só no primeiro semestre deste ano, o número de autorizações de residência a portugueses cresceu 6420.
Ouvir Sócrates dizer que «em 2006 as coisas começaram finalmente a melhorar», sem uma palavra sobre as dezenas de milhares de postos de trabalho destruídos; sem uma referência aos mais de dois milhões de portugueses a viver abaixo do limiar da pobreza; sem uma menção à fuga de cérebros para o exterior; sem uma menção ao fenómeno crescente da imigração, ouvir isto, dizia, não é apenas escandaloso, é uma afronta ao povo português.


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