O Iraque segundo Durão

Jorge Cordeiro
Fosse universalmente aceite como verdadeiro o provérbio que diz ser «pela boca que morre o peixe» e haveria quem considerasse da mais elementar prudência manter a sua, o mais possível, fechada. Será o caso de Durão Barroso e das suas declarações sobre a guerra do Iraque. Para os que já descortinam algum malicioso trocadilho entre a personagem do provérbio – o peixe - e um popular exemplar da espécie – o cherne – a que o actual presidente da Comissão Europeia (então ainda a caminho de primeiro-ministro) foi associado por uma menos ponderada, mas bem intencionada, expressão de zelo familiar, aqui fica desde já lavrado o indispensável desmentido. Não seria para aqui chamado o provérbio se não se tivesse dado o caso de Durão Barroso, por feitio ou por força do cargo, não ter resistido ao que a prudência aconselharia, ou seja manter-se calado sobre a questão.
Dir-se-ia que constatando o óbvio, «o Iraque está a correr mal» o agora presidente da Comissão Europeia bem poderia ter prescindido de acrescentar que o papel a que se prestou enquanto anfitrião da cimeira da guerra «foi benéfico para Portugal». Não apenas pela insensatez da frase mas sobretudo pelos argumentos que aduziu para a sustentar. Diz Durão que com o apoio dado à cimeira onde foi anunciada a invasão do Iraque não só «Portugal nada perdeu» como ganhou uma «credibilidade na ocasião» traduzida, segundo ilação do próprio, no facto de ter sido «convidado para o cargo que agora ocupa na União Europeia». Subtraído que seja o exagero, posto pelo próprio, quanto ao papel que lhe coube representar nos propósitos bélicos de Bush e Blair (a de um mero mestre de cerimónias sem direito a figurar no retrato), o saldo a extrair das declarações que Durão produziu é o que resulta das duas significativas confissões que lhe estão implícitas: uma, reveladora de um chocante calculismo político que o conduz (movido seguramente por uma plena adesão ao princípio segundo o qual haverá males que vêm por bem) à conclusão perante a guerra – e o reconhecido rasto de morte e dor que a invasão e ocupação que se lhe associaram lançou sobre todo um povo –, de que sem os pressupostos que a justificaram, ele Durão Barroso, não teria chegado onde chegou; outra, confirmadora que em matéria de União Europeia e da sua política externa, ressalvadas algumas contradições e contratempos mais ou menos acessórios, prevalece o princípio do alinhamento com a estratégia de dominação imperialista do Estados Unidos e a inevitável premiação dos que mais acriticamente se apressam a servi-la.


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