Resistência e guerra civil
«O Iraque está em guerra civil», classificam os média dos EUA contrariando Washington. No terreno, desenrolam-se duros combates entre resistentes e ocupantes, e os senhores da guerra disputam entre si o poder.
«Em média, perdem a vida 119 civis por dia»
Pela primeira vez desde o início da invasão do Iraque, os meios de comunicação norte-americanos rompem com a análise oficial da Casa Branca nesta matéria e decidem passar a classificar o conflito iraquiano como uma guerra civil.
Depois do The New York Times ter adoptado a expressão a partir das edições do passado fim-de-semana, também a NBC seguiu o mesmo caminho. A cadeia de televisão levou mesmo um general na reserva a estúdio para fundamentar, de acordo com o que sempre foi convencionado no seio do exército dos EUA, a afirmação.
O facto não é do menor importância e para além de ter irritado a administração Bush - que se apressou a rejeitar a classificação de guerra civil através do porta-voz do Conselho de Segurança Nacional, Gordon Johndroe -, fomentou o debate em torno da espiral de violência que quotidianamente assola o país, precisamente quando George W. Bush se preparava para reunir, ontem e hoje, em Amã, na Jordânia, com o primeiro-ministro do governo colaboracionista do Iraque, Nuri al-Maliki.
Sempre táctico nas palavras, o ainda secretário-geral das Nações Unidas considerou que se não forem tomadas «medidas urgentes» corre-se o perigo de «cair na guerra civil», mas rejeitou qualificar o conflito. Kofi Annan falava antes de um encontro com a comissão de avaliação da situação no território, liderada pelo antigo secretário de Estado norte-americano, James Baker.
Segundo um relatório da ONU, divulgado há uma semana, no passado mês de Outubro morreram no Iraque 3709 pessoas, um número recorde desde a ocupação, em 2003. Em média, perdem a vida 119 civis por dia, diz a organização.
Atoleiro insanável
Paralelamente às classificações oficiais e não oficiais, os combates entre resistência e tropas ocupantes e entre grupos armados a mando de senhores da guerra continuam. O número de cadáveres encontrados com sinais de tortura parece já não espantar ninguém, até porque os ajustes de contas tidos como de carácter confessional sucedem-se. Só anteontem foram descobertos cerca de 40 corpos na capital, Bagdad.
No mesmo registo, na quinta-feira da semana passada, em Sadr City, bairro indicado como bastião do exército particular do clérigo e político Moqtad al-Sadr, 200 pessoas morreram e outras 250 ficaram feridas na sequência de uma série de atentados na zona. A violência crescente nesta última semana é apontada como fruto do incidente, de tal forma grave que al-Sadr ameaçou al-Maliki com a retirada dos seus 30 deputados no parlamento caso o chefe do executivo não tome medidas contra a brutalidade e insista em reunir com George W. Bush. Maliki deslocou-se ao bairro para render homenagem às vítimas e foi apedrejado pela população.
A Bagdad em pé de guerra juntam-se as cidades de Ramadi, Kirkuk, Tal Afar, Kanaane, Baaquba e Falujah. Na província de Al-Anbar, um avião de combate F-16 foi abatido, mas o comando dos EUA justificou a queda do aparelho com mais uma falha técnica. Até ao início desta semana os dados oficiais garantiam que durante o mês de Novembro já haviam morrido 55 soldados yankees em combates no Iraque.
Sintomático do atoleiro insanável em que se tornou o Iraque para as tropas invasoras é o facto de, após meses de campanha militar desastrosa na citada província de Al-Anbar, ter vindo a lume que os EUA e o governo títere de Bagdad estabeleceram um acordo com 11 chefes tribais locais. O «Conselho de Clãs para a Salvação de Al Anbar» assume papel central nos combates contra a resistência tomando partido pelos invasores como protagonista militar.
Barry McCaffrey, o oficial superior chamado pela NBC para clarificar a razão pela qual a multinacional de conteúdos televisivos passou a considerar o conflito no Iraque como uma guerra civil, disse perante milhões de espectadores que uma guerra é assim considerada quando pelo menos dois grupos rivais se enfrentam defendendo campos políticos opostos, tudo nas barbas de um governo incapaz de gerir o problema.
Se os EUA apoiam um governo sem autoridade; chamam de legítimo um parlamento cujos grupos e partidos representados se enfrentam em armas nas ruas; estabelecem acordo com um grupo civil incitando-o a combater outro grupo civil politicamente oposto, falta informar que outro padrão de classificação adoptou a administração Bush para rejeitar a designação de civil à guerra que martiriza o povo do Iraque.
Depois do The New York Times ter adoptado a expressão a partir das edições do passado fim-de-semana, também a NBC seguiu o mesmo caminho. A cadeia de televisão levou mesmo um general na reserva a estúdio para fundamentar, de acordo com o que sempre foi convencionado no seio do exército dos EUA, a afirmação.
O facto não é do menor importância e para além de ter irritado a administração Bush - que se apressou a rejeitar a classificação de guerra civil através do porta-voz do Conselho de Segurança Nacional, Gordon Johndroe -, fomentou o debate em torno da espiral de violência que quotidianamente assola o país, precisamente quando George W. Bush se preparava para reunir, ontem e hoje, em Amã, na Jordânia, com o primeiro-ministro do governo colaboracionista do Iraque, Nuri al-Maliki.
Sempre táctico nas palavras, o ainda secretário-geral das Nações Unidas considerou que se não forem tomadas «medidas urgentes» corre-se o perigo de «cair na guerra civil», mas rejeitou qualificar o conflito. Kofi Annan falava antes de um encontro com a comissão de avaliação da situação no território, liderada pelo antigo secretário de Estado norte-americano, James Baker.
Segundo um relatório da ONU, divulgado há uma semana, no passado mês de Outubro morreram no Iraque 3709 pessoas, um número recorde desde a ocupação, em 2003. Em média, perdem a vida 119 civis por dia, diz a organização.
Atoleiro insanável
Paralelamente às classificações oficiais e não oficiais, os combates entre resistência e tropas ocupantes e entre grupos armados a mando de senhores da guerra continuam. O número de cadáveres encontrados com sinais de tortura parece já não espantar ninguém, até porque os ajustes de contas tidos como de carácter confessional sucedem-se. Só anteontem foram descobertos cerca de 40 corpos na capital, Bagdad.
No mesmo registo, na quinta-feira da semana passada, em Sadr City, bairro indicado como bastião do exército particular do clérigo e político Moqtad al-Sadr, 200 pessoas morreram e outras 250 ficaram feridas na sequência de uma série de atentados na zona. A violência crescente nesta última semana é apontada como fruto do incidente, de tal forma grave que al-Sadr ameaçou al-Maliki com a retirada dos seus 30 deputados no parlamento caso o chefe do executivo não tome medidas contra a brutalidade e insista em reunir com George W. Bush. Maliki deslocou-se ao bairro para render homenagem às vítimas e foi apedrejado pela população.
A Bagdad em pé de guerra juntam-se as cidades de Ramadi, Kirkuk, Tal Afar, Kanaane, Baaquba e Falujah. Na província de Al-Anbar, um avião de combate F-16 foi abatido, mas o comando dos EUA justificou a queda do aparelho com mais uma falha técnica. Até ao início desta semana os dados oficiais garantiam que durante o mês de Novembro já haviam morrido 55 soldados yankees em combates no Iraque.
Sintomático do atoleiro insanável em que se tornou o Iraque para as tropas invasoras é o facto de, após meses de campanha militar desastrosa na citada província de Al-Anbar, ter vindo a lume que os EUA e o governo títere de Bagdad estabeleceram um acordo com 11 chefes tribais locais. O «Conselho de Clãs para a Salvação de Al Anbar» assume papel central nos combates contra a resistência tomando partido pelos invasores como protagonista militar.
Barry McCaffrey, o oficial superior chamado pela NBC para clarificar a razão pela qual a multinacional de conteúdos televisivos passou a considerar o conflito no Iraque como uma guerra civil, disse perante milhões de espectadores que uma guerra é assim considerada quando pelo menos dois grupos rivais se enfrentam defendendo campos políticos opostos, tudo nas barbas de um governo incapaz de gerir o problema.
Se os EUA apoiam um governo sem autoridade; chamam de legítimo um parlamento cujos grupos e partidos representados se enfrentam em armas nas ruas; estabelecem acordo com um grupo civil incitando-o a combater outro grupo civil politicamente oposto, falta informar que outro padrão de classificação adoptou a administração Bush para rejeitar a designação de civil à guerra que martiriza o povo do Iraque.