PROTESTO GERAL
Mais de cem mil pessoas manifestaram-se em Lisboa

Protesto crescente exige mudança

Muitos milhares de trabalhadores da Administração Pública e do sector empresarial desfilaram, no dia 12, durante quase quatro horas, da baixa de Lisboa para a Assembleia da República, fazendo do «protesto geral pela mudança de políticas, convocado pela CGTP-IN, a maior manifestação laboral desde há duas décadas. Nas palavras de ordem gritadas pelos manifestantes e nas intervenções dos dirigentes sindicais sobressaiu a determinação de prosseguir a luta, com o ênfase colocado na defesa da Segurança Social pública, universal e solidária.

Desta grande ma­ni­fes­tação so­bressai a de­ter­mi­nação de pros­se­guir a luta

Cerca das 14.30 horas, já a multidão que convergia para o Rossio começava a obrigar ao corte do trânsito. No Terreiro do Paço, na mesma altura, o protesto dos trabalhadores da Administração Pública enchia a estrada junto ao Ministério das Finanças.
Ainda não eram adiantadas estimativas quanto ao número de manifestantes, mas a grande quantidade de autocarros, que desde o final da manhã foram chegando a Lisboa, e a mobilização confirmada por algumas uniões de sindicatos (mais de cinco mil pessoas e cem autocarros, do distrito do Porto, três mil pessoas de Braga, ou 1270 pessoas e 25 autocarros, de Aveiro, por exemplo) e por estruturas sectoriais ou de empresas faziam já prever que este «protesto geral» seria uma grande manifestação do descontentamento dos trabalhadores.
Com o tempo a avançar e o Rossio a ficar mais cheio, o desfile começou a formar-se, com os dirigentes da CGTP-IN a deslocarem-se para a entrada da Praça dos Restauradores, acompanhados de outros trabalhadores, que transportavam flâmulas coloridas. À frente desta «cabeça» da manifestação, um carro alegórico transportava uma «bateria» de bidões, energicamente batidos, num ribombar de alarme e de chamamento para a luta.
«O Governo faz mal, o protesto é geral» foi a nova palavra de ordem lançada para este dia e que foi uma das mais repetidas. Também se ouviu, forte e frequentemente, gritar que «há lucros aos milhões e só cortam nas pensões», «trabalhar até morrer, isto assim não pode ser», «contenção salarial só serve o capital», «o custo de vida aumenta, o povo não aguenta». Mas talvez as mais ouvidas tenham sido «CGTP unidade sindical» e «a luta continua».
Pouco passava das 15 horas, a manifestação fez-se à Avenida da Liberdade, já livre do tráfego automóvel que dela faz todos os dias uma campeã da poluição urbana. Logo depois do «quadrado» da direcção da CGTP-IN, seguiam algumas centenas de jovens, identificados com faixas e bandeiras da Interjovem. Ouviram-se depois os sotaques do Norte e do Centro, à passagem dos manifestantes do Porto, de Aveiro, Coimbra, Braga, Viana, Bragança, Vila Real, Guarda, Viseu.
A meio da avenida, a partir de um estúdio móvel, uma dirigente sindical ia lembrando os motivos do protesto, deitando o mote para as palavras de ordem dos manifestantes, que ali soavam com mais força, e informando sobre o desenrolar da marcha: «Camaradas, a cabeça da manifestação está a entrar em São Bento e ainda está muita gente no Rossio!».
Passaram, mantendo um desfile compacto, entusiasmado e satisfeito pela forte participação, os activistas da Inter-Reformados, os sindicatos e empresas do distrito de Lisboa, os representantes dos Açores e da Madeira, trabalhadores de Leiria, Castelo Branco, Santarém, Portalegre, Évora, Beja, Algarve e, por fim, do distrito de Setúbal. Seguiu-se, depois, mais um longo desfile de trabalhadores da Administração Pública, vindos desde o Terreiro do Paço e que só depois das 18.30 horas chegariam ao largo defronte do Palácio de São Bento.
Aqui, desde as quatro da tarde, tinham começado a chegar os primeiros manifestantes. Passado pouco tempo, pela instalação sonora que cobria também a área até ao Jardim das Francesinhas, começaram a ouvir-se repetidos apelos a que os manifestantes não parassem e continuassem a deslocar-se para a Avenida D. Carlos I, de modo a que todos os participantes pudessem marcar a sua presença frente à escadaria do Parlamento.
Também aqui, os dirigentes iam dando notícias do andar da manifestação, que serpenteou durante toda a tarde por uns cinco quilómetros do coração da cidade. E iam admitindo a dificuldade em avançar estimativas. «Se temos as ruas cheias, daqui até ao Rossio, que número poderemos adiantar», interrogava-se, a dada altura, João Torrado, dirigente da União dos Sindicatos de Lisboa e da CGTP-IN, depois de corrigir para mais de cem mil manifestantes o cálculo inicial.


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