No reino do vale-tudo

Margarida Botelho
Passaram esta 2ª feira cinco anos sobre os terríveis atentados terroristas às Torres Gémeas em Nova Iorque, cujos contornos estão ainda por esclarecer. Às homenagens mais ou menos institucionais juntaram-se as habituais programações televisivas: debates, filmes, alinhamentos de telejornais, especiais de informação, documentários mais ou menos conspirativos - como agora é moderno chamar aos que não seguem escrupulosamente a historiografia oficial do império.
Na tentativa de justificar como medidas de combate ao Mal a guerra e o racismo, a tortura e o terrorismo de Estado, a perseguição cultural e religiosa, a pilhagem e a opressão nacional, a exploração e a miséria, valeu tudo.
Valeu Pacheco Pereira a falar da «contentação ideológica» que os «órfãos do comunismo» terão sentido com as vítimas de 11 de Setembro de 2001.
Valeu um melodrama da TVI com um actor-sósia de Bush a reagir aos dias seguintes aos ataques: Bush-corajoso a recusar sair de uma Casa Branca ameaçada, Bush-íntimo na cama com a mulher a desabafar angústias, Bush-líder a dar ordens a Sharon e Blair.
Valeu Paula Teixeira da Cruz a falar de uma «guerra de civilizações» e a defender a superioridade da «nossa» porque o Islão terá publicado entre o século XII e o século XXI tantos livros quantos a Espanha edita por ano.
Valeu um do­cu­men­tário apresentado como sendo construído a partir de histórias reais de sobreviventes em que todos os heróis eram homens brancos, todos os salvados eram mulheres e negros, o cobarde era um asiático, não existiam árabes naquele dia em Nova Iorque e terminava com um militar a explicar que ou ripostamos aos terroristas ou «que Deus nos ajude!».
Valeu Marcelo Rebelo de Sousa a ajudar-nos a decidir quais são as liberdades de que devemos abdicar em troca da segurança, sem deixarmos de ser democracias com «autoridade moral» para pros­se­guir o com­bate.
Valeu uma representante da embaixada dos EUA em Portugal a lamentar que os cidadãos do seu país não tenham apreendido a real dimensão da ameaça e «ainda» não vivam diariamente no medo.
Valeu mesmo tudo para fazer aquilo que o PCP já denunciou: usar o chavão de «guerra ao terrorismo» como cobertura política e ideológica para os objectivos estratégicos de domínio mundial do imperialismo. O que vale, é que o desejo de paz e soberania dos povos se transforma em resistência e luta.


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