A ignomínia

Henrique Custódio
Sejamos claros: o que Israel está linearmente a fazer desde há cerca de um mês é a arrasar um país, o Líbano, sob o pretexto de perseguir e exterminar um «grupo terrorista» ali alojado.
As evidências deste horror acumulam-se em tal quantidade e selvajaria, que já nem podem ser iludidas ou obliteradas, sequer, pela condescendência pró-sionista quase generalizada da Comunicação Social que, sobretudo nos noticiários televisivos, nunca se esquece de dizer que as bombas do Hezbollah «mataram um israelita», enquanto os raides aéreos de Israel sobre Beirute «causaram 25 vítimas mortais», como ainda hoje, terça-feira, se anunciava na SIC-Notícias, na ilusão de que ninguém há-de reparar nesta grosseira manipulação semântica que, com toda a objectividade, apresenta um dos lados a «matar» e o outro a «causar vítimas».
É assim que todo o mundo já viu, em imagens concretas e brutais, um pouco do estado em que se encontra o Líbano após quase um mês de bombardeamentos consecutivos e maciços de Israel, com o pormenor de serem bombardeamentos com precisão cirúrgica, resultante da alta tecnologia norte-americana incorporada no arsenal israelita igualmente made in USA, evidentemente.
São imagens de autêntico pesadelo: bairros inteiros arrasados nas principais cidades - Beirute, Sídon (hoje Saida) e Tiro (agora Sur) -, todo o tipo de infraestruturas destruídas, desde depósitos de água a centrais eléctricas, hospitais a escolas, estradas a pontes, jardins a mercados, edifícios administrativos a bairros residenciais, milhões de desalojados vagueando apavorados e sem rumo, todas as ligações com o exterior meticulosamente rebentadas, a rica multiculturalidade do país feita em estilhaços com milhares de emigrantes a fugir desesperados e espavoridos, a economia desarticulada, a sociedade em escombros, a sobrevivência reduzida ao mais elementar e mesmo essa na eminência de falir, no imediato, para centenas de milhares de pessoas.
É esta a situação actual no «País dos Cedros» após um mês de ataque israelita, agravada com mais de mil mortos já confirmados, a maioria civis com inúmeras mulheres e crianças pelo meio, além de famílias inteiras liquidadas com «bombas inteligentes» à cata de terroristas, enquanto do lado israelita anda pela meia centena o número de mortos que as erráticas bombas do Hezbollah têm causado, a maioria militares israelitas abatidos em combate.
A este massacre de civis com bombardeamentos de alta tecnologia chama Israel uma «guerra» para «perseguir terroristas», argumento que considera suficiente para, de caminho, invadir e destruir meticulosamente um país indefeso.
Por um momento, aceitemos como admissível a tese de Israel de que o Hezbollah é um mero «grupo terrorista», esquecendo também de caminho – como aliás Israel o faz, com o desplante do costume – que o Hezbollah foi formado exactamente como defesa contra a bárbara invasão do Líbano por Ariel Sharon em 1982, que provocou 22 mil mortos.
Assim sendo, então a Espanha também está no direito de invadir a França e de a reduzir a escombros para perseguir a ETA que se alberga para lá dos Pirinéus, tal como a Índia pode entrar a arrasar pelo Paquistão adentro, porque se albergam por lá extremistas Sikh ou muçulmanos...
Sendo, como são, tão absurdas como obviamente inadmissíveis tais invasões da França ou do Paquistão para se perseguir «grupos terroristas», por que carga de água o mundo e, nele, a nossa União Europeia hão-de continuar a encolher os ombros perante esta monstruosidade da destruição do Líbano, por Israel, sob tão miserável pretexto?!...
Trata-se de uma ignomínia a nível planetário – ainda por cima perpetrada pelo povo que sofreu, nos guetos, uma outra monstruosidade: a do genocídio nazi dos judeus.


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