Líbano, Guernica do Médio Oriente!

Rui Paz

Berlim tem vindo a intensificar o fornecimento de armas a Israel

Ao invocarem o «direito de defesa de Israel», a chanceler Merkel (CDU) e o ministro dos Negócios Estrangeiros Steinmeier (SPD) deram carta branca à agressão israelita contra o Líbano. O governo alemão, juntamente com Washington e Londres, tem vindo a sabotar qualquer tomada de posição da ONU ou da União Europeia para um cessar fogo imediato. Espalhado o caos no Iraque pelas tropas de ocupação militar norte-americanas, os círculos imperialistas alemães voltam-se para Israel convencidos de que Telaviv continua a ser o mais fiel polícia do petróleo no Médio Oriente. Ultimamente, Berlim tem vindo a intensificar o fornecimento de armas a Israel, inclusive de submarinos capazes de lançar bombas atómicas contra os seus vizinhos árabes.

O envolvimento directo da Alemanha nos planos de agressão israelita tornou-se mais visível desde a nomeação de Detlev Mehlis para chefe da comissão da ONU, encarregada de investigar o atentado que provocou a morte do antigo primeiro-ministro libanês Rafik Hariri. O relatório, fabricado pelo jurista alemão com base em falsos testemunhas, deveria incendiar o Líbano, provocar uma guerra civil e levar o Conselho de Segurança a atacar a Síria, o que, como hoje é evidente, serviria às mil maravilhas os planos de Israel e do imperialismo de agravamento da destabilização no Médio Oriente. As falsidades contidas no relatório são tão grandes que o secretário-geral da ONU teve de afastar Mehlis da comissão. Mas, surpreendentemente, o presidente da república da Alemanha, Horst Köhler, condecorou o jurista alemão com a «Cruz de Mérito» pelos serviços prestados «na luta contra o terrorismo internacional». Ainda Hariri não tinha sido sepultado, já George Bush responsabilizara a Síria pela autoria do atentado. Como constata o especialista de criminologia Jürgen Kübel, numa entrevista ao «Junge Welt» (11.04.06), sabe-se que Hariri estava na lista das pessoas a abater pelo chamado «Comité dos Estados Unidos para a libertação do Líbano», uma organização dirigida pelo banqueiro libanês residente na América, Ziad K. Abdelnour. Este comité é apoiado por Washington e pelo ex-conselheiro da Casa Branca, Richard Perle. No relatório da comissão das Nações Unidas, Mehlis escondera que o sistema de defesa anti explosivos do primeiro-ministro libanês, fornecido por uma firma israelita, e capaz de interceptar o despoletamento de bombas à distância, não funcionou, apesar do emissor ter estado sempre ligado antes, durante e depois do atentado. Aliás, o director da firma que produz e controla tais receptores é um ex-membro dos serviços secretos militares israelitas. Estes factos foram completamente silenciados por Mehlis no relatório da ONU. Não é pois, por acaso, que o primeiro-ministro Olmert afirma, na sua mais recente entrevista ao Süddeutsche Zeitung (04.08.06), que a Alemanha é o melhor «amigo de Israel».

A estratégia seguida pelo imperialismo nos Balcãs e no Iraque de atiçar a confrontação entre as várias comunidades religiosas está a falhar na Palestina e no Líbano. É essa a razão porque Israel se decidiu pela destruição completa da Pátria dos Cedros e pela transformação da Palestina numa prisão gigantesca. Os depoimentos de crianças e jovens alemães de origem libanesa e palestiniana que tiveram de fugir do Sul do Líbano, de Kana e de Gaza, revelam a selvajaria israelita que ultrapassa os horrores que se conhecem do regime racista sul-africano do apartheid e das guerras coloniais em África.
Nem os nazis se lembraram, como o faz hoje Israel, de pôr as crianças nas escolas a pintar as bombas que vão assassinar as crianças libanesas. Só os interesses perversos do imperialismo podem levar o Governo alemão a invocar Auschwitz para justificar massacres idênticos aos da Legião Condor hitleriana e apoiar a transformação do Líbano na Guernica do Médio Oriente.
A suspensão imediata da agressão israelita contra o Líbano é um imperativo civilizacional indispensável para a preservação da paz mundial.


Mais artigos de: Opinião

Dogmas e preconceitos

Uma revista semanal publicou na semana passada uma interessante reportagem sobre as casas ricas de algumas das mais ricas famílias do nosso país, sublinhando na capa que «o preço médio de uma moradia é de 3 milhões de euros». Noutras páginas da imprensa referia-se que segundo as estatísticas oficiais há em Portugal 2...

«De férias descansado»

A central de comunicação deste Governo, no exercício das suas «reconhecidas qualidades de eficácia», abrilhantando ao milímetro cada segundo de exposição mediática de J.Sócrates, e de «discrição», determinando inapelavelmente quem, como e quando fala (ou não) pelo Governo, preparou com os directores de certos media...

Há mais na Caixa...

Segundo o Jornal de Negócios (edição de 8 de Agosto), os resultados líquidos consolidados da Caixa Geral de Depósitos (CGD) aumentaram 27,2 por cento no primeiro semestre do ano, situando-se em 388,6 milhões de euros, contra os 305,4 milhões registados no período homólogo do ano passado. Em termos brutos, ou seja antes...

A ignomínia

Sejamos claros: o que Israel está linearmente a fazer desde há cerca de um mês é a arrasar um país, o Líbano, sob o pretexto de perseguir e exterminar um «grupo terrorista» ali alojado.As evidências deste horror acumulam-se em tal quantidade e selvajaria, que já nem podem ser iludidas ou obliteradas, sequer, pela...