Dogmas e preconceitos

Aurélio Santos
Uma revista semanal publicou na semana passada uma interessante reportagem sobre as casas ricas de algumas das mais ricas famílias do nosso país, sublinhando na capa que «o preço médio de uma moradia é de 3 milhões de euros». Noutras páginas da imprensa referia-se que segundo as estatísticas oficiais há em Portugal 2 milhões de pobres. Entretanto os jornais anunciavam esta semana que o arredondamento das taxas de juro pode dar aos bancos um encaixe suplementar de mais de 198 milhões de euros. E o primeiro ministro anuncia regularmente com um sorriso optimista que já entrámos na retoma.
Este conjunto de notícias tão evidentemente contraditórias
recorda-nos como é importante termos um critério para análise da catadupa de informação que constantemente é lançada sobre nós, aparentemente só com objectivos informativos.
O capitalismo e os que o servem querem apresentar as relações económicas como tendo um caracter impessoal, como sendo puramente relações objectivas de mercadorias entre si, na economia de mercado, que nada têm a ver com considerações morais e é regida por leis naturais.
Mas o ideal que o sistema capitalista apresenta só pode ser alcançado por alguns, a expensas da maioria. Esta é a essência do capitalismo.
Todas as sociedades têm a sua ética e as suas referências. E o valor dominante hoje, na sociedade neoliberal, pode ser traduzido por urna só palavra: dinheiro. Por ele pode-se tudo: negociar: a dignidade, o corpo, a liberdade. Em nome dele, tudo se transforma em mercadoria: os ideais, as crenças, as esperanças.
Dentro do próprio sistema pode haver - e há - valores morais conflitantes com o padrão dominante. Mas a própria natureza deste sistema económico cria os seus «valores morais» que, na prática, colocam na marginalidade as manifestações de uma ética humanitária .
Para podermos avaliar os acontecimentos com critérios éticos é necessário ter presente que a exploração do homem pelo homem não é natural. Nada tem a ver com a natureza humana nem com quaisquer leis ou valores naturais. Faz parte de um determinado momento histórico, da divisão da sociedade em classes e da luta de classes.
Os valores morais são criados na vida social para orientar as acções humanas e regular a relação entre as pessoas. Têm significado no quadro de uma cultura determinada, e porque são criações humanas podem ser alterados. Mesmo quando se tornam preconceitos impostos por todas as formas de domínio ideológico de que dispõem as classes dominantes.
É o que pretendemos, na luta contra a exploração capitalista e os seus conceitos, preconceitos e dogmas.


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