O reinado das transnacionais
O capitalismo sempre se desenvolveu no contexto de uma nação, com a participação activa do estado. Foi o estado que promoveu o capital monopolista. É do capitalismo monopolista de estado e das necessidades de expansão do capital que, no começo da década de 70, coincidindo com a dita «globalização», se deu um salto na internacionalização do capital e da produção e surgiu a empresa multinacional.
Hoje, as empresas multinacionais, a que algumas instâncias passaram a chamar de empresas transnacionais (ETN), devido ao volume de activos no estrangeiro que possuem e à complexidade das cadeias globais de produção e distribuição que movimentam, são verdadeiras economias, com activos superiores ao PIB de muitos estados. São também um elemento central da ofensiva de classe contra o trabalho.
No rankingdas sete maiores ETN não-financeiras permanecem cinco empresas, que já em 1990 tinham esse estatuto – a Ford, a General Motors, a British Petroleum, a Exxon/Móbil e a RoyalDutch/Shell(1). Em 2003, o total dos activos destas cinco empresas era de cerca de 1280 mil milhões de dólares, ou seja, mais de 3% do produto mundial.
Numa altura em que ainda se fala de «nova economia», é de notar que duas destas empresas são do sector automóvel e as restantes são petrolíferas. Para além destas, outras ETN destes sectores estão presentes no ranking das 100 maiores, o que mostra dois dos factores que contribuíram para o desenvolvimento capitalista do pós guerra: uma fonte de energia barata – o petróleo – e a segunda vaga de produção de automóveis. É verdade, que hoje se encontram no topo do ranking, empresas de telecomunicações móveis como a Vodafone, mas também é verdade que quem surge com grande força são os «campeões nacionais» da electricidade, do gás e da água dos países do G5 (EUA, Inglaterra, Alemanha, França e Japão).
É também de notar que destas cinco empresas, três são norte-americanas e duas são inglesas. Se continuarmos pelo ranking vemos que as 20 maiores ETN pertencem na quase totalidade ao G5, ou seja, às nações capitalistas mais desenvolvidas, o que revela a importância das grandes potências na criação das condições domésticas e internacionais para o desenvolvimento das suas ETN. De salientar ainda que, no ranking das 100 maiores ETN, apenas constam 4 empresas dos países vias de desenvolvimento, uma de Hong-Kong/China, uma da Malásia, uma de Singapura e a uma última da Coreia do Sul (ou seja, os chamados «Tigres Asiáticos»).
Assim se vê o peso dos países em vias de desenvolvimento e as relações centro/periferia, nomeadamente se tivermos em conta que estas 100 ETN são responsáveis por dois terços das trocas internacionais, dos quais um terço são trocas entre filiais das ETN.
Contudo, o mais significativo, é que estas cinco ETN valorizaram os seus activos totais em 96% e os seus activos no estrangeiro em 148% face a 1990. No mesmo período, reduziram em 40% a sua força de trabalho total, ou seja, mais de 600 mil pessoas. Reduziram também a sua força de trabalho nas filiais estrangeiras em 33%, mas em menor grau e com matizes diferenciadas. Esta estratégia marca bem o processo de reestruturação de empresas com vista a redução dos custos, via fusões&aquisições (F&A).
Este exemplo, mostra bem o grau da concentração e centralização do capital a nível mundial. Para além da intensificação das F&A ao nível de cada país, as F&A transfronteiriças, apesar dos ajustes ao ciclo económico, tiveram um forte aumento, quadruplicando entre 1987-1995 e 1995-2004, quando atingiram um volume global superior a 4600 mil milhões de dólares. Em 2004, as F&A nacionais cresceram mais de 50% e as F&A transfronteiriças 28%, o que mostra a consolidação do capital monopolista nacional. Mostra também a participação do capital monopolista na ofensiva contra o trabalho e os sindicatos, desenvolvendo mega F&A, reestruturações, downsizing, outsourcing, encerramento de empresas e processos de automatização que valorizam o capital e os lucros e aumentam o exército de reserva.
Em paralelo acentua-se a predominância do capital financeiro e sua fusão com o capital industrial. Em 2003, o Citigroup dos EUA, a maior das ETN financeiras, tinha um total de activos de mais de 1260 mil milhões de dólares, equivalente aos activos das cinco maiores ETN não financeiras. As 10 maiores ETN financeiras tinham um número de activos superior a 25% do PIB mundial e as 50 maiores a quase 80% do PIB mundial.
Lénine na sua definição «curta se necessária» de imperialismo resumia-o à fase monopolista do capitalismo. Hoje, vivemos o reinado das transnacionais, marcado pela intensificação da exploração de trabalho e defendido ao nível mundial pelas organizações de concertação capitalista (FMI, BM, OMC) e pelo poder militar da potência imperialista hegemónica – os EUA.
(1) World Investment Report 2005, CNUCED
Hoje, as empresas multinacionais, a que algumas instâncias passaram a chamar de empresas transnacionais (ETN), devido ao volume de activos no estrangeiro que possuem e à complexidade das cadeias globais de produção e distribuição que movimentam, são verdadeiras economias, com activos superiores ao PIB de muitos estados. São também um elemento central da ofensiva de classe contra o trabalho.
No rankingdas sete maiores ETN não-financeiras permanecem cinco empresas, que já em 1990 tinham esse estatuto – a Ford, a General Motors, a British Petroleum, a Exxon/Móbil e a RoyalDutch/Shell(1). Em 2003, o total dos activos destas cinco empresas era de cerca de 1280 mil milhões de dólares, ou seja, mais de 3% do produto mundial.
Numa altura em que ainda se fala de «nova economia», é de notar que duas destas empresas são do sector automóvel e as restantes são petrolíferas. Para além destas, outras ETN destes sectores estão presentes no ranking das 100 maiores, o que mostra dois dos factores que contribuíram para o desenvolvimento capitalista do pós guerra: uma fonte de energia barata – o petróleo – e a segunda vaga de produção de automóveis. É verdade, que hoje se encontram no topo do ranking, empresas de telecomunicações móveis como a Vodafone, mas também é verdade que quem surge com grande força são os «campeões nacionais» da electricidade, do gás e da água dos países do G5 (EUA, Inglaterra, Alemanha, França e Japão).
É também de notar que destas cinco empresas, três são norte-americanas e duas são inglesas. Se continuarmos pelo ranking vemos que as 20 maiores ETN pertencem na quase totalidade ao G5, ou seja, às nações capitalistas mais desenvolvidas, o que revela a importância das grandes potências na criação das condições domésticas e internacionais para o desenvolvimento das suas ETN. De salientar ainda que, no ranking das 100 maiores ETN, apenas constam 4 empresas dos países vias de desenvolvimento, uma de Hong-Kong/China, uma da Malásia, uma de Singapura e a uma última da Coreia do Sul (ou seja, os chamados «Tigres Asiáticos»).
Assim se vê o peso dos países em vias de desenvolvimento e as relações centro/periferia, nomeadamente se tivermos em conta que estas 100 ETN são responsáveis por dois terços das trocas internacionais, dos quais um terço são trocas entre filiais das ETN.
Contudo, o mais significativo, é que estas cinco ETN valorizaram os seus activos totais em 96% e os seus activos no estrangeiro em 148% face a 1990. No mesmo período, reduziram em 40% a sua força de trabalho total, ou seja, mais de 600 mil pessoas. Reduziram também a sua força de trabalho nas filiais estrangeiras em 33%, mas em menor grau e com matizes diferenciadas. Esta estratégia marca bem o processo de reestruturação de empresas com vista a redução dos custos, via fusões&aquisições (F&A).
Este exemplo, mostra bem o grau da concentração e centralização do capital a nível mundial. Para além da intensificação das F&A ao nível de cada país, as F&A transfronteiriças, apesar dos ajustes ao ciclo económico, tiveram um forte aumento, quadruplicando entre 1987-1995 e 1995-2004, quando atingiram um volume global superior a 4600 mil milhões de dólares. Em 2004, as F&A nacionais cresceram mais de 50% e as F&A transfronteiriças 28%, o que mostra a consolidação do capital monopolista nacional. Mostra também a participação do capital monopolista na ofensiva contra o trabalho e os sindicatos, desenvolvendo mega F&A, reestruturações, downsizing, outsourcing, encerramento de empresas e processos de automatização que valorizam o capital e os lucros e aumentam o exército de reserva.
Em paralelo acentua-se a predominância do capital financeiro e sua fusão com o capital industrial. Em 2003, o Citigroup dos EUA, a maior das ETN financeiras, tinha um total de activos de mais de 1260 mil milhões de dólares, equivalente aos activos das cinco maiores ETN não financeiras. As 10 maiores ETN financeiras tinham um número de activos superior a 25% do PIB mundial e as 50 maiores a quase 80% do PIB mundial.
Lénine na sua definição «curta se necessária» de imperialismo resumia-o à fase monopolista do capitalismo. Hoje, vivemos o reinado das transnacionais, marcado pela intensificação da exploração de trabalho e defendido ao nível mundial pelas organizações de concertação capitalista (FMI, BM, OMC) e pelo poder militar da potência imperialista hegemónica – os EUA.
(1) World Investment Report 2005, CNUCED