Comentário

O reinado das transnacionais

Pedro Carvalho
O capitalismo sempre se desenvolveu no contexto de uma nação, com a participação activa do estado. Foi o estado que promoveu o capital monopolista. É do capitalismo monopolista de estado e das necessidades de expansão do capital que, no começo da década de 70, coincidindo com a dita «globalização», se deu um salto na internacionalização do capital e da produção e surgiu a empresa multinacional.
Hoje, as empresas multinacionais, a que algumas instâncias passaram a chamar de empresas transnacionais (ETN), devido ao volume de activos no estrangeiro que possuem e à complexidade das cadeias globais de produção e distribuição que movimentam, são verdadeiras economias, com activos superiores ao PIB de muitos estados. São também um elemento central da ofensiva de classe contra o trabalho.
No ran­kingdas sete maiores ETN não-financeiras permanecem cinco empresas, que já em 1990 tinham esse estatuto – a Ford, a Ge­neral Mo­tors, a Bri­tish Pe­tro­leum, a Exxon/​Móbil e a Royal­Dutch/​Shell(1). Em 2003, o total dos activos destas cinco empresas era de cerca de 1280 mil milhões de dólares, ou seja, mais de 3% do produto mundial.
Numa altura em que ainda se fala de «nova economia», é de notar que duas destas empresas são do sector automóvel e as restantes são petrolíferas. Para além destas, outras ETN destes sectores estão presentes no ran­king das 100 maiores, o que mostra dois dos factores que contribuíram para o desenvolvimento capitalista do pós guerra: uma fonte de energia barata – o petróleo – e a segunda vaga de produção de automóveis. É verdade, que hoje se encontram no topo do ranking, empresas de telecomunicações móveis como a Vo­da­fone, mas também é verdade que quem surge com grande força são os «campeões nacionais» da electricidade, do gás e da água dos países do G5 (EUA, Inglaterra, Alemanha, França e Japão).
É também de notar que destas cinco empresas, três são norte-americanas e duas são inglesas. Se continuarmos pelo ran­king vemos que as 20 maiores ETN pertencem na quase totalidade ao G5, ou seja, às nações capitalistas mais desenvolvidas, o que revela a importância das grandes potências na criação das condições domésticas e internacionais para o desenvolvimento das suas ETN. De salientar ainda que, no ran­king das 100 maiores ETN, apenas constam 4 empresas dos países vias de desenvolvimento, uma de Hong-Kong/China, uma da Malásia, uma de Singapura e a uma última da Coreia do Sul (ou seja, os chamados «Tigres Asiáticos»).
Assim se vê o peso dos países em vias de desenvolvimento e as relações centro/periferia, nomeadamente se tivermos em conta que estas 100 ETN são responsáveis por dois terços das trocas internacionais, dos quais um terço são trocas entre filiais das ETN.
Contudo, o mais significativo, é que estas cinco ETN valorizaram os seus activos totais em 96% e os seus activos no estrangeiro em 148% face a 1990. No mesmo período, reduziram em 40% a sua força de trabalho total, ou seja, mais de 600 mil pessoas. Reduziram também a sua força de trabalho nas filiais estrangeiras em 33%, mas em menor grau e com matizes diferenciadas. Esta estratégia marca bem o processo de reestruturação de empresas com vista a redução dos custos, via fusões&aquisições (F&A).
Este exemplo, mostra bem o grau da concentração e centralização do capital a nível mundial. Para além da intensificação das F&A ao nível de cada país, as F&A transfronteiriças, apesar dos ajustes ao ciclo económico, tiveram um forte aumento, quadruplicando entre 1987-1995 e 1995-2004, quando atingiram um volume global superior a 4600 mil milhões de dólares. Em 2004, as F&A nacionais cresceram mais de 50% e as F&A transfronteiriças 28%, o que mostra a consolidação do capital monopolista nacional. Mostra também a participação do capital monopolista na ofensiva contra o trabalho e os sindicatos, desenvolvendo mega F&A, reestruturações, down­si­zing, out­sour­cing, encerramento de empresas e processos de automatização que valorizam o capital e os lucros e aumentam o exército de reserva.
Em paralelo acentua-se a predominância do capital financeiro e sua fusão com o capital industrial. Em 2003, o Ci­ti­group dos EUA, a maior das ETN financeiras, tinha um total de activos de mais de 1260 mil milhões de dólares, equivalente aos activos das cinco maiores ETN não financeiras. As 10 maiores ETN financeiras tinham um número de activos superior a 25% do PIB mundial e as 50 maiores a quase 80% do PIB mundial.
Lénine na sua definição «curta se necessária» de imperialismo resumia-o à fase monopolista do capitalismo. Hoje, vivemos o reinado das transnacionais, marcado pela intensificação da exploração de trabalho e defendido ao nível mundial pelas organizações de concertação capitalista (FMI, BM, OMC) e pelo poder militar da potência imperialista hegemónica – os EUA.

(1) World In­vest­ment Re­port 2005, CNUCED


Mais artigos de: Europa

Espanha reconhece vítimas do franquismo

Quando se cumprem 70 anos sobre o golpe fascista contra a II República, o governo de José Rodrigues Zapatero aprovou um projecto de lei que prevê o reconhecimento público e reparação das vítimas do franquismo.

Greve corta tráfego

Cerca de 600 trabalhadores da Ibéria, do serviço de terra, ocuparam, na sexta-feira, 28, as pistas do aeroporto de Barcelona, paralisando durante todo o dia o tráfego aéreo.

Serviços secretos apoiaram raptos da CIA

Os serviços de informações italianos (SISMI) não só colaboraram com a agência norte-americana CIA no sequestro do imã Abú Omar, efectuado em Fevereiro de 2003, na cidade de Milão, como recolheram informações sobre outras três pessoas que a CIA pretendia deter em solo italiano.As revelações foram feitas em tribunal pelo...

HP volta a admitir pessoal

Em Setembro de 2005, a Hewlett-Packard anunciou a intenção de despedir cerca de seis mil trabalhadores na Europa, dos quais 1240 em França. Face à pressão dos sindicatos e poderes públicos franceses, a multinacional americana aceitou baixar aquele número para 853, mas em troca exigiu a revogação das 35 horas semanais....

Fosso salarial afecta mulheres

As mulheres britânicas teriam de esperar 150 anos para, ao ritmo actual, atingirem o nível salarial dos seus colegas masculinos. A conclusão é de um grupo de especialistas da Escola de Ciências Económicas de Londres (LSE), cujo estudo foi publicado na sexta-feira, 28, pelo diário The Times.Assinalando que o fosso...