Os trinta dinheiros

Leandro Martins
Só de passagem refiro as 333 medidas que o Governo anunciou para «desburocratizar» a nossa vida, um anúncio que já tem no nosso jornal, a Talhe de Foice, um merecido comentário. Os portugueses já se vão habituando às medidas «laterais» do executivo de Sócrates, que afinal não passam de propaganda. O que a gente sabe é que as medidas prometidas em campanha eleitoral pelo PS, nomeadamente aquelas que apontavam para o não aumento de impostos e a criação de emprego eram as costumeiras falsidades da política de direita que, quando se guinda ao poder através de qualquer das suas formações políticas – PS, PSD e a muleta do PP, em variadas conjunções – logo esquece o prometido e volta a descarregar sobre os trabalhadores, os pensionistas, as mulheres e os jovens desfavorecidos, o seu zelo comandado pelos interesses do capital.
Há crise? Veja-se os lucros dos bancos. Como antigamente se dizia: «Se queres dinheiro, vai ao Totta», o que equivalia a significar que a banca do tempo do fascismo já lucrava abundantemente e torna a lucrar hoje, cada vez mais, à medida que Abril se distancia e a política de direita ganhou terreno, baseada na aliança entre os três partidos que comandam os destinos do País. O número 3 persegue-nos...
Mas, afinal, nas notícias mais pequenas, a que os jornais não dão destaque – ou mesmo nem sequer referem – vê-se que há por aí dinheiro a correr. Para pagar aos trabalhadores o justo salário? Para dignificar as pensões e as reformas de quem passou uma vida de trabalho? Para dotar os hospitais de meios humanos e técnicos à altura da prestação de cuidados? Para melhorar a educação e o ensino, dando estabilidade profissional aos professores e gratuitidade aos estudantes no seu estudo? Para resolver o problema da habitação e arrancá-la às manobras especulativas? Não somos ingénuos. O dinheiro vai para os bolsos dos monopolistas. E também dos seus lacaios.
Uma nota que fomos encontrar na agência financeira, um serviço especializado e normalmente consultado pelos «agentes financeiros» portugueses, revela que o ministro Teixeira dos Santos vai «dar passos no sentido de permitir uma mais justa associação entre a evolução profissional dos funcionários e respectivas remunerações». Tudo bem, dir-se-ia. Mas a coisa fia mais fino. O ministro refere-se especialmente a «um adequado reconhecimento remuneratório das funções mais qualificadas, designadamente as funções de direcção».
Estamos conversados. Quem manda recebe os trinta dinheiros da sua boa vontade. Os outros que carreguem com a cruz ao calvário.


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