Guerra «civil» e memória

Leandro Martins
Já aqui falámos com alguma abundância sobre a questão da memória histórica, aquela que não precisa de ser longínqua para se perder nas dobras de uma informação que a apague ou que a reescreva. Tal como há gestores da economia que pretendem fazer crer que a economia vai má, enquanto embolsam milhões ou os dão aos que mais têm, e assim asseguram que o melhor remédio é o despedimento e a destruição da capacidade produtiva nacional, também, associados a estes, há por aí muitos gestores de memória cuja tarefa fundamental é dar o dito por não dito, o feito por não feito, a verdade pela mentira.
Urticam-se alguns profissionais, quando nós criticamos a generalidade dos media vendidos ao capital e obedientes ao pensamento único, de que atribuímos as culpas dos acontecimentos à comunicação social. O certo é que não poderemos ignorar-lhe o peso na formação de uma opinião pública que é obrigada a alinhar pela opinião massivamente publicada e que bastas vezes procura desmentir a realidade.
O exemplo que damos hoje ninguém acreditaria nele se não estivesse gravado. E, mesmo assim, muita gente se demoraria na incredulidade se não vir a gravação. E muita gente ficará assim, quando a RTP «repetir» – às 4 da manhã!!! – a entrevista ao resistente Abdul Al-Kubaysi, presidente da Aliança Patriótica Iraquiana (que o Avante! entrevistou a semana passada) e que a televisão pública remeteu para o seu canal de cabo RTP Memória!!!
Nesse canal, muitas vezes escondida entre as pregas do horário, se pode ver alguma coisa das verdades da história. Porém, confrontada com a força do testemunho de Al-Kubaysi, a RTP decidiu despromover a actualidade da entrevista para o esquecimento da memória enlatada, com um entrevistador a fazer enfastiadamente o frete das perguntas moldadas na matriz imperialista e um entrevistado visivelmente interessado em repor a verdade dos factos.
O Iraque da actualidade não pode ser esquecido, por muito poucas vozes que haja no Ocidente a defendê-lo. Não pode ser esquecida a ocupação, o terror, a morte indiscriminada sobre a população civil que os americanos e seus lacaios persistem em fazer pesar sobre um país soberano.
Nem mesmo as manobras que dão como certa a «guerra civil» com que procuram mascarar a resistência ao invasor. Também no Vietname a guerra americana se mascarou longo tempo de «ajuda» a uma das «partes» em guerra, isto é aos fantoches da Casa Branca que governavam o sul de um país dilacerado. O imperialismo perdeu. Perderá também no Iraque, enquanto soubermos preservar a memória.


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