O Estado da União

John Catalinotto
George W. Bush apresentou a sua mensagem sobre o “Estado da União” a 31 de Janeiro, em Washington. Se Bush falhou na transmissão do mesmo sentimento de confiança que inspirou há um ano, acabado de sair da sua vitória eleitoral, houve uma boa razão para isso. O apoio que recolhe nas sondagens tem sido inferior a 40 por cento, com a maioria da população a considerar que a sua administração falhou tanto ao nível das políticas doméstica como internacional. A sua fraqueza pode ser vista não apenas nas matérias de que fala como nas que omite.
Por exemplo, Bush não disse nada sobre o Medicare Drug Plan que o seu governo aprovou o ano passado e cujos efeitos começam agora a fazer-se sentir, porque o resultado tem sido um desastre. Apresentado pela administração Bush como um «grande» negócio para os 42 milhões de idosos e pensionistas que recebem a assistência Medicare, o plano é na verdade uma mina para as seguradoras de saúde e os gigantes farmacêuticos e um pesadelo para a maioria dos mais pobres e doentes.
A chamada Medicare Modernization Bill de 2003 não se destinou de facto a ajudar os 42 milhões de reformados que recebiam assistência pela Medicare. Tratou-se de um vasto programa governamental que pôs dinheiro directamente nas mãos de organizações privadas, uma mina de ouro num total de 728 mil milhões de dólares para as seguradoras e indústrias farmacêuticas. Enquanto isso, dezenas de milhares de pobres saem das farmácias de mãos vazias, sem medicamentos essenciais para a sua sobrevivência, incluindo medicamentos para o cancro. As hospitalizações médica e psiquiátrica aumentaram à medida que as pessoas pioraram devido à falta de medicamentos vitais.
Bush também não falou do Furacão Katrina nem do seu plano de reconstrução de Nova Orleães. Não quis chamar a atenção para a falta de resposta do governo à crise no passado mês de Setembro que rondou a negligência criminosa. Ou que o último estudo sobre os acontecimentos revela que 80 por cento dos evacuados de Nova Orleães provavelmente não voltarão à cidade a menos que o governo faça um forte esforço para ali criar condições de vida aceitáveis.
Uma vez que a administração Bush é identificada como muito próxima dos interesses da indústria petrolífera, Bush surpreendeu toda a gente ao alertar para a «dependência da América do petróleo» e para a necessidade de romper com essa situação e procurar fontes de energia alternativa. Bush também apelou aos jovens para que «estudem matemática e ciências». O seu orçamento, contudo, fez cortes no programa de subsídios.

Política de guerra

Houve uma área em que o orçamento de Bush acertou o passo com a sua retórica. Foi quando discutiu a guerra. Guerra contra o terrorismo, para ser mais específico. E em especial a continuada ocupação do Iraque e do Afeganistão. Bush continua a rejeitar os crescentes apelos para trazer as tropas para casa. Nesta matéria, conta com o apoio dos dirigentes do Partido Democrático, a suposta oposição.
Bush agarra-se à sua posição de «manter o rumo» e clama que tem um «plano para a vitória» apesar de toda a evidência em contrário. O discurso de Bush descreve o mesmo plano brutal face ao Iraque que a administração vem seguindo nos últimos três anos. Voltou outra vez a ligar a ocupação do Iraque com a alegada guerra contra o terrorismo. Tentou ignorar o que toda a gente sabe: que cada razão que apresentou para justificar a guerra foi já desmascarada como uma mentira deliberada. Bush falou seis vezes do Irão, como a preparar o caminho para nova escalada de agressão. Dentro de dias, a administração vai apresentar um orçamento de 437 mil milhões de dólares para o sector militar, mais outros 120 mil milhões para as guerras no Iraque e no Afeganistão.
Enquanto não surge uma resposta forte dos democratas contra a continuação da guerra, o movimento anti-guerra continua em acção. Cindy Sheehan, mãe do caído soldado Casey Sheehan, foi presa por «conduta desleal» quando tentava assistir ao evento sobre o Estado da União com uma camisola onde se podia ler «2245 mortos - Quantos mais?», em referência ao número de soldados norte-americanos mortos. Sheehan tinha sido convidada por um dos representantes.
Pessoas politicamente activas em todo o país protestaram contra a mensagem de Bush. Cerca de 1000 pessoas desfilaram próximo da Times Square em Nova Iorque numa iniciativa promovida pela organização ‘O Mundo Não Pode Esperar’, que também realizou uma manifestação em Washington, D.C., a 4 de Fevereiro. A Assembleia dos Movimentos Sociais do Fórum Mundial Social em Caracas, Venezuela, apelou entretanto à coordenação internacional de protestos contra a guerra nos dias 18 e 19 de Março, o terceiro aniversário do ataque dos EUA contra o Iraque. Um grupo que está já a preparar acções de protesto é a ‘Coligação Tropas Fora Agora’, que centrará as iniciativas nos centros de recrutamento militar que têm falhado nas tentativas de cativar jovens para irem lutar e morrer no Iraque.


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